ENVELHECERES — Envelhecer bem é possível

Introdução

A invisibilidade das pessoas mais velhas é um fenómeno silencioso, mas profundamente presente na nossa sociedade. Apesar de ser um tema pouco estudado e muitas vezes evitado, é urgente trazê-lo para o centro do debate público, também político.

Sobre a invisibilidade: questões de partida

  • O que leva tantas pessoas mais velhas a sentirem-se invisíveis para amigos e familiares?
  • Será que sempre foram, ou tornaram-se com o tempo?
  • E será que as redes sociais, apesar de oferecerem alguma visibilidade, conseguem realmente combater a tristeza e a solidão?
Pessoa mais velha no dia do seu aniversário.

Dados que não podemos ignorar

  • Portugal é atualmente o segundo país mais envelhecido da União Europeia, com quase o dobro de “idosos” por cada 100 jovens.[i]
Índice de envelhecimento na UE e invisibilidade

Índice de envelhecimento na EU em 2024, Pordata.[ii]

Nota: Escrevo “idosos” desta forma porque não considero um conceito com sustentação científica, até porque varia consoante os países. Por exemplo, 60 anos no Brasil, 65 anos em Portugal, 67 anos na Bélgica, 75 anos em Itália. Prefiro «pessoas mais velhas», a classificação que tenho utilizado nos diferentes artigos. Para quem ainda vive agarrado à visão de que “velhos são os trapos”, só lhes posso dizer que “envelhecemos” e não “idosamos”!

Infográfico sobre envelhecimento, invisibilidade e solidão dos idosos em Portugal

Dados sobre o envelhecimento.[iii][vi][vii][viii]

  • A evolução do índice de envelhecimento de 1950 para 2024, sete décadas, teve um aumento de 812%.[iv][v]

Evolução do Índice de Envelhecimento 1950 – 2024

AnoValor
2024192,4
2021181,3
2011128,0
2001102,6
199172,1
198146,0
197034,0
196027,3
195023,7

Fontes: Pordata. Fundação Francisco Manuel dos Santos

Combater a tristeza e a solidão

No Estudo de Avaliação Multidimensional do Envelhecimento Ativo e Saudável[ix], publicado em dezembro de 2022 pela ANIMAR – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local, são trazidas à colação um conjunto de preocupações relativas a Fatores Psicossociais e Estilos de Vida, onde se aborda a tristeza e a solidão, chamando-se a atenção de que há várias formas de contribuir para afastar estes sentimentos:

🍽️Investir nas relações sociais e organizar almoços, jantares ou pequenos lanches em família ou com amigos/ antigos colegas de trabalho;

🧘Participar em atividades físicas de grupo (hidroginástica, ioga, jogos, pilates);

🌿Caminhar na natureza regularmente;

📚Investir na formação contínua;

💼Regressar ao mercado de trabalho, na mesma profissão ou em outra atividade.

Plano Gerontológico Local ► ENVELHECERES — Envelhecer bem é possível

Uma visão incómoda para refletir na invisibilidade

Na página 44 do Estudo atrás referido, alertamos para vários fatores pessoais e sociais que promovem a tristeza e a solidão. Ignorá-los é continuar a alimentar imagens idílicas de como a vida devia de ser:

  • Solidão resultante da reforma e da perda da rede de contactos;
  • Isolamento por viuvez;
  • Falta de contacto com a família/abandono familiar, muitas vezes resultante de muitos anos de más relações, apesar de muita gente querer fazer parecer que o aumento da idade tudo apaga, o que não é obviamente verdade e é necessário ter coragem para o afirmar.

Para se compreender melhor o processo de «abandono» e não se alimentarem falsas esperanças, temos de olhar para estas questões com seriedade e serenidade, até porque não acreditamos em (re)construção familiar quando pais, mães e filhos/as viveram toda uma vida de costas voltadas uns para os outros e umas para as outras a maior parte do tempo, em que o vínculo familiar era apenas o nome no cartão de cidadão.

Uma chamada de atenção urgente

Os números apresentados não são apenas estatísticas.

São vidas, histórias, pessoas que passam dias, semanas, meses sem ver ninguém.

A solidão mata, acelera o declínio físico e mental, e rouba dignidade a quem mais merece respeito.

Não podemos continuar a normalizar o abandono, a invisibilidade e a tristeza das pessoas mais velhas.

É urgente agir: promover relações sociais, incentivar atividades em grupo, valorizar a formação contínua e criar oportunidades para o regresso ao mercado de trabalho.

Mais do que nunca, precisamos de políticas públicas robustas e de uma mudança de mentalidade coletiva para combater a solidão e devolver visibilidade, dignidade e sentido à vida dos mais velhos.

O Fim do Ciclo: Reforma e Ajustamentos de Vida ►

Conclusão

Refletir sobre este tema é um dever de todos e todas. Só assim poderemos construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva, onde ninguém é deixado para trás.

É importante que se trabalhe com as pessoas mais velhas o que é o processo de envelhecimento, o que se pretende para o nosso envelhecimento, o que queremos e não temos, porque nos sentimos sós e tristes.

O processo de trabalho implica escuta ativa, disponibilidade, dedicação e muito respeito.

💬 Desafio para a ação (call to action)

Não basta sentir empatia — é preciso agir.

Organiza um encontro, liga a um familiar, propõe uma atividade comunitária.

Cada gesto conta para devolver visibilidade, dignidade e sentido à vida dos mais velhos.

Partilhe este artigo. Organize um gesto. Seja parte da mudança.

Bibliografia

[i] https://cnnportugal.iol.pt/envelhecimento/idosos-em-portugal/solidao-abandono-institucionalizacao-este-pais-ainda-e-para-velhos/20250929/68d6db2bd34e58bc67963cb8

[ii] https://www.pordata.pt/pt/estatisticas/populacao/populacao-residente/indice-de-envelhecimento-e-outros-indicadores-de

[iii] Idem, ibidem.

[iv] Pordata. Índice de envelhecimento e outros indicadores de envelhecimento. https://www.pordata.pt/pt/estatisticas/populacao/populacao-residente/indice-de-envelhecimento-e-outros-indicadores-de

[v] AA.VV. Dinâmicas demográficas e envelhecimento. Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014. https://ffms.pt/pt-pt/estudos/estudos/dinamicas-demograficas-e-envelhecimento-da-populacao-portuguesa

[vi] Idem, ibidem.

[vii] https://rr.pt/noticia/pais/2022/05/26/70-dos-idosos-em-portugal-sentem-se-sos/285783/

[viii] https://www.editoracientifica.com.br/artigos/solidao-e-isolamento-social-entre-idosos-impactos-na-saude-mental

[ix] https://www.animar-dl.pt/wp-content/uploads/2023/05/Estudo-de-Avaliacao-Multidimensional-do-Envelhecimento-Ativo-e-Saudavel.pdf#:~:text=O%20presente%20estudo%20de%20%E2%80%9CAvalia%C3%A7%C3%A3o%20Multidimensional%20do%20Envelhecimento,de%20desenvolvimento%20local%20para%20um%20envelhecimento%20com%20bem-estar.

Olá, sou Raul Jorge Marques

Formação Avançada pós-Universitária em Gerontologia Aplicada – Vertente Social e Clínica. Mestre em Geografia Humana – Desenvolvimento Regional. Licenciado em Geografia e em Geografia-Ramo de Formação Educacional. Consultor independente em desenvolvimento territorial e gerontologia aplicada. Coordenador Científico na ANIMAR, do Grupo de Trabalho Envelhecimento e Desenvolvimento Local, promovendo envelhecimento ativo e territórios inclusivos.

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