ENVELHECERES — Envelhecer bem é possível

A palavra “idoso” é imprecisa: o que diz a ciência

GerontologiaProcesso de envelhecimento

Introdução

Quem acompanha o meu trabalho em Gerontologia sabe que há muitos anos problematizo o que considero um pseudoconceito: “idoso” ou “idosa”. Hoje trago esta reflexão ao Envelheceres com um propósito claro: se queremos mudar a forma como a sociedade envelhece, precisamos de mudar a forma como a nomeamos.

A linguagem nunca é neutra. Ela constrói realidades, legitima práticas e sustenta políticas. E, no campo do envelhecimento, poucas palavras carregam tanto peso simbólico — e tanta imprecisão científica — como “idoso/idosa”.

O envelhecimento não começa aos 65 anos: começa no nascimento

Um dos principais problemas do termo “idoso” é a ilusão de fronteira. Não existe qualquer marcador biológico que transforme alguém em “pessoa idosa”. O envelhecimento é um processo contínuo, diverso e profundamente individual.

A literatura é clara: a idade cronológica é um indicador pobre para descrever trajetórias de vida (Baltes & Baltes, 1990). As idades administrativas — 60, 65 ou 70 — servem para organizar políticas, não para descrever pessoas.

A heterogeneidade é tão grande que a Organização Mundial da Saúde afirma que as diferenças entre pessoas com mais de 60 anos são maiores do que entre qualquer outro grupo etário (WHO, 2020).

Espelho, aparência e idade: o que muda e o que permanece? ►

“Idoso”: o mito de um grupo homogéneo

A palavra “idoso” sugere uma unidade que não existe. A população com mais de 65 anos é, empiricamente, a mais diversa da sociedade:

  • autonomia vs. dependência
  • escolaridade elevada vs. baixa escolarização
  • recursos económicos abundantes vs. pobreza estrutural
  • participação social intensa vs. isolamento profundo

Como argumentam Estes, Biggs & Phillipson (2003), categorias rígidas produzem políticas simplificadoras e práticas profissionais que ignoram a complexidade das trajetórias de vida.

“Idoso”: O peso invisível das palavras

Para além da imprecisão conceptual, há o peso simbólico. Termos como “elderly” — e, por extensão, “idoso” — evocam fragilidade, doença, inutilidade e dependência.

Becca Levy (2009) demonstrou que estereótipos negativos internalizados aceleram declínio cognitivo e funcional, influenciam decisões clínicas e reduzem expectativas de participação social.

A linguagem não descreve apenas: ela atua.

Glossario-ANTI-IDADISMO-final.pdf

Linguagem é poder

Quando chamamos alguém de “idoso”, reforçamos uma narrativa que restringe possibilidades e alimenta o idadismo — muitas vezes sem intenção.

A Gerontological Society of America recomenda evitar “elderly” por ser “impreciso, paternalista e estigmatizante” (GSA, 2015). A APA segue a mesma linha, sugerindo “older adults” ou “older people” (APA, 2021).

Se existe envelhecimento — um processo — então o que existe são pessoas que envelhecem.

Não existe “idosamento”.

Ninguém “idosa”.

O termo congela o movimento da vida.

A pergunta certa não é:


➡ “Quando é que alguém se torna idoso?

A pergunta certa é:

➡ “Como é que cada pessoa envelhece, em que contexto e com que recursos?

Esta mudança desloca o foco da categorização para a relação humana, como defendem Twigg & Martin (2015) e Baars (2012).

“Idoso” ou “pessoa mais velha”: da categorização rígida à relação humana

Talvez seja mais coerente — e mais justo — abandonar fronteiras e adotar termos relacionais:

  • pessoas mais jovens
  • pessoas mais velhas

Estas expressões não etiquetam. Não diminuem. Não criam muros.

Apenas situam temporalmente, com respeito e humanidade. Organizações científicas internacionais têm vindo a recomendar expressões person-centered, como:

  • older people
  • older adults
  • pessoas mais velhas

Porque não se trata apenas de linguagem: trata-se de ética, dignidade e responsabilidade social.

Uma questão de rigor científico e de justiça social

Se queremos combater o idadismo, promover longevidade com qualidade e apoiar políticas públicas mais justas, precisamos de atualizar o nosso vocabulário.

Repensar o uso da palavra “idoso/ idosa” não é uma questão de modismo ou de correção política. É uma questão de:

  • rigor conceptual;
  • coerência científica;
  • combate ao idadismo;
  • respeito pela diversidade humana.

A Gerontologia, enquanto ciência, tem a obrigação de abandonar categorias simplificadoras e abraçar a complexidade humana.

No fim, talvez a mudança comece aqui:

na forma como nomeamos o envelhecimento.

Não porque as palavras resolvem tudo, mas porque transformam a forma como pensamos, sentimos e agimos.

Conclusão: das categorias fixas às relações dinâmicas

Talvez seja tempo de abandonar a pergunta “Quando é que alguém se torna idoso?” e substituí-la por outra, mais útil e mais humana:

“Como é que cada pessoa envelhece?”

Quando deixamos de ver “idosos/idosas” — e começamos a ver pessoas, diversas, singulares, em contínuo envelhecimento — abrimos espaço para políticas mais inteligentes, práticas mais humanas e sociedades mais justas.

Bibliografia

Gerontologia Crítica e Age Studies

  • Calasanti, T., & Slevin, K. (2001). Gender, Social Inequalities, and Aging. AltaMira Press.
  • Estes, C., Biggs, S., & Phillipson, C. (2003). Social Theory, Social Policy and Ageing. Open University Press.
  • Gullette, M. M. (2004). Aged by Culture. University of Chicago Press.
  • Katz, S. (1996). Disciplining Old Age. University Press of Virginia.
  • Baars, J. (2012). Aging and the Art of Living. Johns Hopkins University Press.

Psicologia Social do Envelhecimento e Ageism

  • Levy, B. (2009). Stereotype Embodiment: A psychosocial approach to aging. Current Directions in Psychological Science, 18(6), 332–336.
  • North, M. S., & Fiske, S. T. (2012). An Inconvenienced Youth? Ageism and its potential intergenerational roots. Psychological Bulletin, 138(5), 982–997.
  • Ayalon, L., & Tesch-Römer, C. (Eds.). (2018). Contemporary Perspectives on Ageism. Springer.

Heterogeneidade e complexidade do envelhecimento

  • Baltes, P. B., & Baltes, M. M. (1990). Successful Aging: Perspectives from the Behavioral Sciences. Cambridge University Press.
  • Rowe, J. W., & Kahn, R. L. (1997). Successful Aging. The Gerontologist, 37(4), 433–440.

Recomendações institucionais

  • World Health Organization. (2020). Decade of Healthy Ageing: Baseline Report.
  • American Psychological Association. (2021). Guidelines for Psychological Practice with Older Adults.
  • Gerontological Society of America. (2015). Communicating About Aging: Words Matter.
Olá, sou Raul Jorge Marques

Formação Avançada pós-Universitária em Gerontologia Aplicada – Vertente Social e Clínica. Mestre em Geografia Humana – Desenvolvimento Regional. Licenciado em Geografia e em Geografia-Ramo de Formação Educacional. Consultor independente em desenvolvimento territorial e gerontologia aplicada. Coordenador Científico na ANIMAR, do Grupo de Trabalho Envelhecimento e Desenvolvimento Local, promovendo envelhecimento ativo e territórios inclusivos.

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