A ciência médica tem feito progressos extraordinários no estudo do cérebro humano, nomeadamente em relação à Doença de Alzheimer. Hoje, diagnosticamos melhor, identificamos fatores de risco com maior precisão e conseguimos tratar alguns sintomas das demências. No entanto, o maior desafio da medicina atual não é o que já descobrimos — é o mapeamento rigoroso daquilo que sabemos que ainda não sabemos.
Na Gerontologia, compreender estas lacunas é essencial. Ajuda-nos a afastar estereótipos, a humanizar o cuidado e a focar no que realmente importa: a singularidade de cada pessoa.
O que já sabemos: O terreno conquistado
Para entender a dúvida, precisamos primeiro de olhar para a certeza — aquilo que a ciência já consolidou. Atualmente, a comunidade científica partilha vários consensos robustos:
- A prevalência. A demência não é uma consequência inevitável do envelhecimento, mas sim uma condição clínica. A doença de Alzheimer é a sua forma mais comum, representando cerca de 60% a 70% dos casos mundiais.
- As marcas no cérebro. Sabemos que a doença está associada à acumulação anómala de duas proteínas: a beta-amiloide, que forma placas fora dos neurónios, e a tau, que cria emaranhados no interior das células.
Consultar imagens no artigo de Leonardo Faria (2024), no portal Meu Cérebro. Alzheimer: as lesões cerebrais predominantes e os genes envolvidos
- A importância da prevenção. Está demonstrado que o estilo de vida influencia a saúde cognitiva. Envelhecimento ativo, estimulação mental, controlo da saúde cardiovascular e nutrição adequada contribuem para proteger a reserva cognitiva.
O World Alzheimer Report 2025 sublinha que a prevenção não depende apenas de escolhas individuais, mas de políticas públicas que promovam ambientes saudáveis, alimentação acessível e cidades que favoreçam a mobilidade.
Em Portugal, o Plano Nacional da Saúde para as Demências estima cerca de 200.000 pessoas com demência, reforçando que esta condição é uma prioridade de saúde pública e não uma consequência inevitável da idade.
Plano Nacional da Saúde para as Demências – Serviço Nacional de Saúde
As grandes incógnitas: O que sabemos que não sabemos?
Se já sabemos tanto, porque razão ainda não temos uma cura?
A resposta reside em quatro grandes mistérios que os investigadores tentam decifrar todos os dias.
1. O gatilho inicial
Sabemos que as proteínas amiloide e tau destroem as ligações entre os neurónios. Não sabemos, porém, o que dispara este processo. O que faz com que, num determinado momento da vida, estas proteínas comecem a comportar-se de forma tóxica no cérebro de uma pessoa e não no de outra? Sem descobrir o “interruptor” inicial, continua difícil impedir o início da doença.
2. O mistério da resiliência cognitiva
Este é talvez o nó mais fascinante para a Gerontologia. Estudos de autópsias revelam que cerca de 30% das pessoas mais velhas que morreram cognitivamente intactas, tinham patologia compatível com Alzheimer, apesar de nunca terem manifestado sintomas.
Sabemos que o cérebro delas tinha a doença biológica. Não sabemos como conseguiram travar os sintomas. Que mecanismos de defesa, adaptações neuronais ou “super‑poderes” biológicos ativaram para manter a autonomia e a cognição protegidas?
Viver com Demência: A Voz de Wendy Mitchell ►
3. A sobreposição invisível (Demências Mistas)
O diagnóstico clínico baseia-se sobretudo nos sintomas visíveis. Contudo, sabemos que muitos cérebros diagnosticados apenas com Alzheimer escondem, na verdade, uma combinação de várias patologias — como lesões vasculares ou proteínas recém-identificadas, como a patologia LATE (Limbic-predominant Age-related TDP-43 Encephalopathy).
O que não sabemos é como identificar e separar com precisão cada uma destas componentes num doente vivo, já que os exames de imagem atuais ainda têm limitações para detetar múltiplos alvos em simultâneo.
4. A barreira da reversibilidade
Os novos tratamentos biológicos conseguem reduzir as placas de amiloide no cérebro. Mas sabemos que não sabemos como reverter o dano já causado. Quando um neurónio morre e a sinapse se perde, a ciência ainda não descobriu forma de regenerar esse tecido ou recuperar a memória perdida.
Mesmo com novos tratamentos biológicos, o World Alzheimer Report 2025 alerta para desigualdades profundas no acesso, lembrando que a inovação só tem impacto quando chega às pessoas.
Lecanemab e Alzheimer: esperança travada pelo preço ►
Um olhar sobre Portugal
Segundo o World Alzheimer Report 2025, apenas 24% dos governos têm um Plano Nacional de Demência, revelando que a resposta global continua muito aquém da urgência epidemiológica.
O Plano Nacional da Saúde para as Demências coloca Portugal em linha com as recomendações internacionais, reconhecendo que a resposta à demência exige políticas públicas robustas, monitorização contínua e integração na reforma da saúde mental.
Com este Plano, Portugal está enquadrado num movimento internacional de resposta estruturada, clarificando um percurso de cuidados assente na ética, proximidade e continuidade.
Mesmo sem cura, é possível estruturar respostas que protegem a dignidade e a autonomia — e isso é, hoje, o verdadeiro eixo ético da intervenção.
O papel da Gerontologia: Cuidar na incerteza
Enquanto a medicina procura respostas laboratoriais, a Gerontologia Clínica e Social foca-se na vida real. Como as pessoas mais velhas não são iguais entre si, cada percurso com uma demência exige um olhar individualizado.
As dúvidas da ciência não devem ser motivo de desespero, mas sim de consciência. Recordam-nos que a prevenção ativa, a relação humana e o afeto no cuidar continuam a ser as ferramentas mais poderosas que temos no presente.
Se envelhecer é inevitável, construir um ecossistema de apoio onde a dignidade seja preservada está ao nosso alcance. O tempo é mestre, a vida continua a ensinar e, mesmo perante a incerteza, envelhecer bem é possível — sobretudo quando cuidamos com consciência, proximidade e dignidade.
A consultar
Alzheimer’s Disease International, Clare, L, Jeon, YH. 2025. World
Alzheimer Report 2025: Reimagining life with dementia – the power of
rehabilitation. London, England: Alzheimer’s Disease International. https://www.alzint.org/u/World-Alzheimer-Report-2025.pdf
National Institute on Aging (NIA). Research Updates on Alzheimer’s Biology. National Institutes of Health. Disponível em: https://www.nia.nih.gov
Organização Mundial de Saúde – Dementia. Genebra: OMS, 2023. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/dementia
Plano Nacional da Saúde para as Demências, https://www.sns.gov.pt/plano-nacional-da-saude-para-as-demencias/
Faria, Leonardo (2024). Alzheimer: as lesões cerebrais predominantes e os genes envolvidos, Meu Cérebro. https://meucerebro.com/alzheimer-patologia-genes/
Mitchell, Wendy (2023). O Que Eu Quero Que Todos Saibam Sobre Demência, Editorial Presença, Queluz de Baixo.
