Introdução
Este artigo é sobre anti-aging e/ ou longevidade. Sobre o que agrada a uns e desagrada a outros?
Inaugura uma nova linha editorial no ENVELHECERES: mais crítica, mais aberta ao debate, mais comprometida com a equidade na longevidade. Exploramos os limites entre ciência, ética e tecnologia, sem preconceitos nem promessas fáceis. Porque envelhecer bem é possível — mas exige escolhas informadas, políticas justas e reflexão profunda.
A seguinte questão de partida vai nortear esta abordagem:
“Para que é que eu sirvo?”
Creio que a dada altura muita gente terá esta interrogação. Talvez mais após a reforma e o afastamento da vida de trabalho e dos companheiros de muitos anos.
Não tem de ter!
Servirá sempre para muito, como o demonstra a Plataforma 55+, cuja participação no programa The Next Big Idea pode ser vista abaixo.
Participação da Plataforma 55+ no programa The Next Big Idea — um exemplo inspirador de propósito na longevidade.
Com ou sem o apoio da “medicina anti-aging” (medicina antienvelhecimento) ou para não ferir as susceptibilidades de quem a considera contranatura, com o apoio da “medicina da longevidade”.
Será apenas uma questão de nome — ou estamos perante visões opostas sobre o envelhecimento?
Diferentes abordagens ao anti-aging
Para quem se preocupa com o novo «paradigma da longevidade», como uma conquista que entronca na problemática do controlo da mortalidade (qual a idade para não morrer?), que de certa forma acomoda o conceito de «envelhecimento ativo», acreditamos que a “medicina antienvelhecimento” possa ter um papel determinante num futuro próximo.
Claro que quando se fala na idade há sempre outras visões para uma mesma realidade, como é o caso da «visão determinista» (mais idade – mais doença – maior incapacidade – menor qualidade de vida) – “ser velho/a é um sacrifício no fim da vida”, ou da «visão otimista» que defende que é possível retardar/ parar o envelhecimento, que o envelhecimento pode ser alentecido, a perspetiva de antienvelhecimento – “ser velho/a é uma fase da vida que requer mais manipulação”.
A última é claramente a minha favorita, fale-se de antienvelhecimento ou de longevidade!
Mas o que se diz e pensa nas Top 47 Startups Anti-Aging?[i]
Envelhecimento e Idade Remanescente: Um Novo Paradigma ►
Panorama das Top 47 Startups Anti-Aging
🔹 Narrativas Centrais
- Anti-aging como intervenção ativa: Muitas startups visam não apenas prolongar a vida, mas reverter ou desacelerar processos biológicos associados ao envelhecimento — o que gera resistência por parecer “contranatura”.
- Longevidade como extensão da saúde: Já o discurso da longevidade parece ser mais aceite por estar associado à prevenção, bem-estar e qualidade de vida — menos disruptivo, mais palatável.
Principais Abordagens Científicas
| Abordagem | Startups | Estratégia |
|---|---|---|
| 🔬 Reprogramação celular | Altos Labs, Retro Biosciences, NewLimit | Reverter células ao estado jovem |
| 🧪 Modulação genética | Shift Bioscience, BioAge Labs | Corrigir genes mitocondriais ou metabólicos |
| 🧠 Neuroproteção | Alzheon, Samumed | Foco em Alzheimer e doenças neurodegenerativas |
| 🧫 Terapias com células-tronco | Celularity, Osiris Therapeutics | Regeneração de tecidos e órgãos |
| 🤖 Inteligência artificial aplicada | Insilico Medicine, Nuritas | Descoberta de moléculas e peptídeos bioativos |
| 🧬 Suplementação celular | Elysium Health, Elevian | Produtos para restaurar funções celulares |
Pessoas e entidades-chave envolvidas
- Altos Labs: Financiada com US$ 3B, reúne cientistas de renome como Shinya Yamanaka (Prémio Nobel pela reprogramação celular).
- Calico (Google): Investimento de US$ 1.5B com foco em biologia do envelhecimento — reforça a ideia de que longevidade é uma questão de engenharia biológica.
- Human Longevity Inc.: Criada por Craig Venter (genoma humano), aposta em big data genómico para personalizar intervenções.
- Juvenescence: Cofundada por Jim Mellon, investidor que defende a longevidade como novo setor económico global.
- Blueprint: Projeto do empresário americano Bryan Johnson, de 45 anos, que ficou conhecido mundialmente por gastar cerca de 2 milhões de dólares por ano para voltar a ter “18 anos” e decidiu como medida drástica de rejuvenescimento trocar de sangue com o seu filho de 17 anos. Desistiu do procedimento porque, segundo ele, “nenhum benefício foi detetado”[ii].
Tensões éticas e filosóficas
- Contranatura ou evolução da medicina? A crítica ao “anti-aging” como artificial ignora que a medicina sempre foi uma forma de desafiar os limites biológicos — da insulina à cirurgia cardíaca.
- Longevidade para quem? Muitas destas startups operam em ecossistemas elitizados, com terapias ainda inacessíveis. A promessa de “viver mais” (Até aos 126 anos? Até aos 150?) ou até “ser imortal”[iii] pode reforçar desigualdades se não vier acompanhada de políticas públicas inclusivas.
Se pudesse viver para sempre … viveria?[iv]
- Narrativas concorrentes: Enquanto o marketing de “anti-aging” evoca juventude eterna, o discurso da longevidade tende a ser mais ético, focado em autonomia, funcionalidade e bem-estar — especialmente em contextos como as Blue Zones, que já explorámos num artigo anterior.
IA e longevidade
Monitorização ou medicalização?
A inteligência artificial já está a transformar a longevidade em várias frentes:
- Monitorização preditiva: algoritmos analisam biomarcadores, padrões de sono, nutrição e atividade física para prever riscos e personalizar intervenções.
- Decisão clínica assistida: sistemas como o Watson Health ou o Insilico Medicine ajudam médicos a identificar terapias mais eficazes com base em big data genómico e histórico clínico.
- Medicalização da longevidade: há risco de transformar o envelhecimento num processo hipercontrolado, onde cada variação biológica é tratada como patologia — o que levanta questões éticas sobre autonomia e naturalidade.
Desafios éticos e jurídicos
- Equidade no acesso: terapias baseadas em IA são frequentemente desenvolvidas em ecossistemas elitizados. Sem políticas públicas inclusivas, podem reforçar desigualdades.
- Consentimento e privacidade: algoritmos que decidem sobre saúde exigem transparência e regulação — quem controla os dados controla o futuro da longevidade.
- Risco de distanásia digital: a IA pode prolongar a vida sem garantir qualidade — o prolongamento artificial da existência sem propósito ou dignidade.
Dispositivos já em uso
- Wearables inteligentes (ex: Whoop, Oura Ring): monitorizam sono, stress e recuperação celular.
- Plataformas de envelhecimento saudável (ex: Humanity App): usam IA para calcular “idade biológica” e sugerir rotinas personalizadas.
- Neurotecnologia preventiva: startups como Alzheon usam IA para prever risco de Alzheimer antes dos sintomas clínicos.
A IA salvífica ou distanásica?
A promessa da IA na longevidade é dupla, por isso poder ser entendida como salvífica[v] ou distanásica[vi]:
- Pode salvar vidas, antecipando doenças e personalizando cuidados.
- Mas também pode desumanizar o envelhecimento, tratando o corpo como máquina e ignorando dimensões afetivas, sociais e espirituais.
Todavia, pessoalmente, continuo a defender que cabe ao cidadão decidir o que quer para a sua vida, não o Estado, não os Serviços Nacionais de Saúde, razão pela qual defendo desde início o Testamento Vital (Diretiva Antecipada de Vontade), incompleta e já ultrapassada na minha perspetiva.
O testamento vital foi definido na Lei n.º 25/2012, de 16 de julho. À data de 13 de janeiro de 2025 estavam apenas ativos 41907 mil testamentos vitais, sendo que mais de 14 mil foram outorgados por homens e mais de 27 mil por mulheres.
Vamos pensar?
A IA pode prever o fim, mas será capaz de redefinir o tempo?
Se envelhecer é humano, até que ponto queremos que algoritmos decidam como o fazemos?
Reflexão final
Por que aceitar viver mais é natural, mas tentar envelhecer melhor é visto como transgressão?
Entre células reprogramadas e algoritmos preditivos, o que está realmente em jogo não é apenas o tempo — é a forma como escolhemos envelhecer. Porque aceitar viver mais é natural. Mas tentar envelhecer melhor… ainda é visto como transgressão.
Bibliografia
[i] https://www.medicalstartups.org/top/aging/
[ii] https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2023/07/12/empresario-americano-de-45-anos-que-gasta-us-2-milhoes-ao-ano-para-voltar-a-ter-18-desiste-de-tratamento.ghtml
[iii] O excelente romance de Rachel Heng, Imortalidade, projeta o futuro em Nova Iorque, em que a esperança de vida ronda os 300 anos e ser imortal é o valor que interessa. HENG, Rachel (2019). Imortalidade. Bertrand Editora, Lisboa.
[iv] Questão que surge na capa do livro de Rachel Heng.
[v] Questão colocada por João Miguel Freitas na comunicação “O Futuro da IA na Personalização da Saúde”, apresentada na Conferência “Rumo às Blue Zones: Como a Transformação Digital Promove a Longevidade”, promovida pelo Instituto de Inovação Tecnológica dos Açores – INOVA, 02 de outubro de 2025.
[vi] A distanásia pode ser entendida como o prolongamento desnecessário e inútil da vida de um paciente, muitas vezes com o uso de tecnologias e tratamentos intensivos, quando a cura ou a recuperação são consideradas improváveis.
