Arte e educação
A arte tem sido, historicamente, tratada como ornamento nos sistemas educativos e nas políticas sociais. Para alguns e algumas um luxo, para outros e outras uma distração, uma «simples» atividade extracurricular. Mas quando olhamos com atenção para os contextos onde a arte é levada a sério — como ferramenta de inclusão, expressão e transformação — percebemos que ela é tudo menos acessória.
O Projeto MUS-E e o papel de Yehudi Menuhin
Recordações de uma avaliação
Em 2006 avaliei para o Ministério da Educação, enquanto consultor do IESE-Instituto de Estudos Sociais e Económicos, o Projeto MUS-E – Musas Europa – Artistas na Escola, criado por Yehudi Menuhin[i], da responsabilidade da International Yehudi Menuhin Foundation (IYMF) e iniciado na Suíça em 1994[ii]. Foi a primeira avaliação feita em Portugal por parte do Ministério da Educação.
Acredito que muita gente nunca tenha ouvido falar no MUS-E, tal como eu na altura, apesar de estar muito envolvido no ensino enquanto professor.
Uma visão inovadora e transversal
Concebido por Yehudi Menuhin para promover uma sociedade mais justa, inclusiva e feliz e tendo por pressuposto de que “em populações escolares carenciadas (precariedade familiar, marginalidade…), com elevados níveis de exclusão social, as atividades artísticas seriam uma excelente forma de suscitar a tolerância e o espírito da paz, canalizando, assim, energias e motivações para a aprendizagem” (Margarida Moura, 2001)[iii], o Projeto MUS-E tinha como públicos–alvo populações escolares desfavorecidas e/ou multiculturais, de forma a promover a inclusão das minorias e assegurar a igualdade de oportunidades.
Impacto social e relevância atual
Esta visão inclusiva, então já muito importante, é agora ainda mais relevante quando vejo a extrema-direita transnacional a atacar as minorias imigrantes, das crianças aos seus pais.

Fonte: Freepik
Na figura abaixo estão as nacionalidades mais representativas dos imigrantes em Portugal, homens e mulheres que contribuem para a nossa economia e para a nossa Segurança Social e que, infelizmente, estão a ser vilipendiados por uma nova casta de políticos acintosos.

Fonte: AIMA I.P. – DPEE – Direção de Planeamento, Estudos e Estatística. Relatório de Migrações e Asilo 2023. RELATÓRIO DE MIGRAÇÕES E ASILO 2024
O Projeto MUS-E em Portugal
Em Portugal o MUS-E iniciou-se em 1996 na Escola EB1 nº1 de Algés e foi coordenado até 1999 pelo Departamento de Educação Básica (DEB) do Ministério de Educação. A partir de 27 de janeiro de 2000 passou a ser gerido e coordenado pela Associação dos Amigos da Fundação Internacional Yehudi Menuhin em Portugal – Associação Menuhin Portugal (AMP), atualmente Associação Yehudi Menuhin Portugal (AYMP).
No ano escolar de 2022/23, o MUS-E Portugal abrangia dez Escolas / Jardins de Infância em diferentes concelhos do país: Évora (3), Oeiras (3), Lisboa (1), Leiria (2), Caminha (1).
Atividades desenvolvidas
- Expressão Dramática: Brincadeiras de faz de conta. Construção de personagens e estórias. Espetáculos de mímica. Jogos dramáticos. Leitura de contos. Realização de peças de teatro e de coreografias diversas
- Expressão Musical: Canto de música tradicional e popular portuguesa, tradicional regional, erudita ou composta para crianças. Dança africana, capoeira, cigana, criativa, oriental, samba, swing, tradicional portuguesa. Toque de instrumentos musicais
- Expressão Plástica: Atividades de artesanato e tecelagem. Construção de brinquedos em arame, chapéus, instrumentos musicais (tambores de lata, baquetas, maracas, …), maquetas (ruas Imaginárias com casas, candeeiros, relva, árvores), mobílias (através de desenhos, recorte e montagem) e marionetas. Criação de fantoches, cabeçudos, máscaras, espantalhos e fotogramas. Estampagem em pano. Gravação de CDs. Modelagem de barro. Pinturas em azulejo, tecido, papel e murais. Realização de filmes. Recortes.
Porque a apropriação da arte não é um exclusivo das crianças, é fácil perceber a transversalidade das atividades, podendo-se por isso ser mais ambicioso relativamente aos seus impactos em diferentes escalões etários.
Os apoios ao MUS-E
Para além do apoio do Ministério da Educação, com quem tinha um protocolo desde 27 de abril de 2000 que lhe assegurava a maior parte do financiamento, o Projeto MUS-E teve até à data da avaliação efetuada o apoio de Associações, Bancos, Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, Empresas privadas, Escolas Superiores/Universidades e Fundações.
Segundo o site da Fundação, o apoio do Ministério da Educação manteve-se até 2012, tendo ainda havido um apoio pontual em 2016/17.
MUS-E Portugal – Associação Yehudi Menuhin Portugal
Os impactos do MUS-E
Segundo a nossa observação, o impacto do MUS-E em escolas marcadas pela exclusão social foi notável:
- Crianças com dificuldades de integração passaram a participar ativamente;
- O desenvolvimento cognitivo e emocional foi estimulado;
- A autoestima floresceu;
- A multiculturalidade deixou de ser obstáculo para se tornar riqueza.
A arte não foi apenas expressão — foi educação, foi comunidade.
Efetivamente, os benefícios da arte não se esgotam na infância ou juventude. Estendem-se, de forma igualmente poderosa, ao processo de envelhecimento. E é aqui que precisamos de ampliar o olhar!
Arte intergeracional: o fio entre o que fomos e o que somos
Arte como ponte entre gerações
A arte tem a capacidade única de ligar gerações. Quando uma pessoa mais velha pinta ao lado de uma criança, não está apenas a partilhar técnica — está a partilhar memória, tempo, identidade. A arte intergeracional permite que o envelhecimento seja vivido como continuidade, não como rutura. É ponto de encontro entre passado e presente, entre experiência e descoberta.
Em projetos comunitários, vemos como oficinas de teatro, música ou expressão plástica criam espaços onde a pessoa mais velha deixa de ser “objeto de cuidado” para se tornar sujeito criador. E isso muda tudo: muda a forma como se vê, como se sente, como se relaciona.
Evidências científicas sobre a influência das artes na saúde mental e física
Na avaliação feita por Rosalia Staricoff em 2004 para o Arts Council England[iv], já referida no artigo abaixo que publicámos no Envelheceres, há um alerta para o facto de ainda existirem muitas áreas por explorar neste domínio, tais como:
- Avaliar o efeito das artes na educação e no treino das equipas médica e de enfermagem, observando em particular o efeito no desempenho e nas interações com o paciente.
- Compreender a contribuição de diferentes formas de arte para a criação de um ambiente terapêutico de apoio em saúde mental.
- Compreender a relação entre a introdução das artes no ambiente da saúde e o recrutamento e retenção do pessoal.
Esta revisão da literatura médica identificou diversas áreas, nas quais os estudos mostraram evidências claras e confiáveis de que os resultados clínicos foram alcançados por meio da intervenção das artes, destacando-se a sua importância em diferentes domínios:
- Redução da ansiedade e da depressão;
- Controlo da pressão arterial e da frequência cardíaca;
- Melhoria da oxigenação ao nível do miocárdio;
- Redução do consumo de medicamentos no tratamento da dor;
- Melhoria do período de recuperação pós-operatória com redução do consumo de sedativos;
- Redução do tempo de permanência no hospital.
Arteterapia e saúde
- Revisões científicas mostram que a arteterapia reduz sintomas de depressão, ansiedade e solidão, melhora a cognição e fortalece vínculos sociais em pessoas mais velhas. Atividades como pintura, modelagem, dança e música são eficazes para promover saúde mental e bem-estar.
- Estudo do ISCTE (Portugal): A prática de atividades artísticas está associada a maior autoestima, integração social, menor solidão e melhor saúde física e mental nas pessoas mais velhas.
Artes e Cultura na Promoção da Saúde e do Bem-estar ►
Arte como motor de desenvolvimento e inclusão
A arte não cura doenças, mas pode curar silêncios. Pode devolver voz a quem já não se sentia escutado, muitas vezes perdido numa solidão dolorosa. Pode criar pontes onde antes havia muros. Em contextos de envelhecimento, especialmente em situações de isolamento ou fragilidade, a arte é ferramenta de reconstrução subjetiva. É espaço de pertença e de reforço da autoestima.
Integrar a arte nas políticas públicas é reconhecer que desenvolvimento e inclusão não se fazem apenas com números, mas também com cultura e cidadania. Projetos comunitários e intergeracionais mostram que o acesso à criação artística é um direito cultural, essencial para combater desigualdades e idadismo. Ao investir na arte, investimos em coesão social, participação ativa e numa sociedade mais justa.
A arte permite que o envelhecimento seja vivido com dignidade, com expressão, com sentido. Não como espera, mas como criação.
Exemplos concretos reforçam esta visão: em Portugal, projetos como o Laços ou o programa Arte e Envelhecimento Ativo da DGARTES mostram que a arte pode ser estruturada como política pública de inclusão; internacionalmente, iniciativas de Creative Ageing evidenciam que envelhecer com arte é envelhecer com cidadania:
- Projeto Laços – Universidade do Porto: intervenção artística e intergeracional que juntou idosos institucionalizados e jovens, promovendo desconstrução de estereótipos e fortalecimento de laços sociais.
- Baring Foundation – “Around the World in 80 Creative Ageing Projects”: mapeamento global de iniciativas que mostram como a arte pode ser motor de inclusão e cidadania em diferentes culturas.

Ao investir na arte, investimos não apenas em expressão, mas em saúde, inclusão e coesão social.
Arte e envelhecimento: mais do que estimulação
Evidências da prática artística
Há evidência crescente sobre os benefícios da prática artística na saúde cognitiva. Pintar, dançar, escrever — tudo isso ativa redes neuronais, estimula a memória, desafia a rotina.
A arte permite que a pessoa mais velha se reconecte com partes de si que julgava perdidas. Permite que se reinvente, que se afirme.
A arte no envelhecimento saudável
- Estímulo cognitivo: Atividades artísticas ativam a neuroplasticidade, retardam o declínio cognitivo e reduzem o risco de demência.brazilartes
- Bem-estar emocional: A arte proporciona sentido, propósito, expressão de sentimentos e valorização pessoal, fatores essenciais para um envelhecimento digno e feliz.
- Inclusão e combate ao idadismo: Práticas artísticas desafiam estereótipos, promovem cidadania ativa e criam espaços de pertença para os mais velhos.
Projetos intergeracionais e comunitários
- Projeto Entrelaçar Gerações – Os Avós do Coração: Projeto da Santa Casa da Misericórdia da Sertã montado em 2022/23 para ser implementado em 2024/25. Visa unir crianças do pré-escolar e pessoas mais velhas em atividades artísticas, promovendo troca de experiências, empatia e sentido de comunidade. Os resultados mostram benefícios mútuos, como redução do isolamento e aumento da autoestima das pessoas mais velhas.[v]
- Projeto Laços: Intervenção artística e intergeracional em pessoas mais velhas e jovens institucionalizados, promovendo a desconstrução de estereótipos e o fortalecimento de laços sociais.[vi]
- Interaging USP (Brasil): Plataforma educativa que integra pessoas mais velhas em atividades artísticas e formativas, com enfoque na aprendizagem ao longo da vida e participação ativa na comunidade.[vii]

Fonte: Freepik
Iniciativas inovadoras
- DGARTES (Portugal): Financiamento em 2022 de 18 projetos que envolveram a população mais velha na criação artística, promovendo inclusão, saúde mental e participação ativa, especialmente em territórios isolados.
- Ashoka – Nova Longevidade (Global/Brasil): Mapeamento de mais de 400 iniciativas inovadoras de longevidade, muitas delas com foco em arte, criatividade e protagonismo da pessoa mais velha como agente de transformação social.
- Programas de “Creative Ageing” (Reino Unido, EUA, Austrália): Oficinas de teatro, dança, música e artes visuais em lares, centros de dia e museus, com resultados positivos em saúde, autonomia e integração social. Destaca-se o papel dos artistas mais velhos como mentores e criadores.
- Design inclusivo e regenerativo: Projetos arquitetónicos e de design que criam ambientes artísticos e sensoriais adaptados à diversidade e neurodiversidade, promovendo bem-estar e participação ativa das pessoas mais velhas.
A arte não é luxo: é dignidade e inclusão!
Bibliografia
[i] Yehudi Menhuin, filho de pais russos, nasceu a 22 de abril de 1916 em Nova Iorque. Aos 7 anos participa pela primeira vez num concurso para violino onde interpreta Mendelssohn. Com apenas 9 anos interpreta em público com a orquestra de São Francisco a “Sinfonia Espanhola” de Lalo. A sua primeira gravação em disco data de 1928 com apenas 12 anos, onde grava obras de Fioco e Franz Ries. Este menino prodígio efectua em 1935 a volta ao mundo em 110 concertos. Homem muito viajado (África do Sul, Alemanha, Áustria, China, EUA, França, Índia, Israel, Itália, Reino Unido, Roménia, etc.), o que lhe permitiu o contacto com diferentes realidades culturais, desde cedo se tornou num militante dos direitos humanos contestando arbitrariedades sociais como o apartheid (1950) e defendendo a tolerância e a cooperação entre povos e culturas. Lutador de e por causas, criou em 1992 a FIYM (International Yehudi Menuhin Foundation) promotora do Projecto MUS-E – Musas Europa – Artistas na Escola desde 1994. Faleceu em Berlim em 12 de Março de 1999 com 82 anos.
[ii] Rapidamente este projeto estendeu-se a outros países da Europa, estando em 2006 presente em 17 países europeus (Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Estónia, Finlândia, França, Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Polónia, Portugal, Suécia e Suíça) e no Brasil (São Salvador da Baía).
[iii] MOURA, Margarida (2001). MUS-E – Artistas na Escola. …Experiência de Integração Social e Educativa,… Vivência Criadora e Formação Artística.
[iv] Staricoff, Rosalia Lelchuk (2004). Arts in health: a review of the medical literature. Research report 36. Arts Council England, https://www.creativenz.govt.nz/assets/ckeditor/attachments/1030/staricoff_r_arts_in_health.pdf?1410235845
[v] Bexiga, Maria Miguel Ferreira de Matos (2023). Entrelaçar gerações: Os avós do coração: Projeto intergeracional: Os benefícios mútuos da interação entre crianças do pré-escolar e idosos [Dissertação de mestrado, Iscte – Instituto Universitário de Lisboa]. Repositório Iscte. http://hdl.handle.net/10071/30845
[vi] Pratinha, Helena Isabel Meneses Carvalho Gomes (2019). “Velhos são os trapos!” O projeto Laços: uma intervenção artística e intergeracional em idosos e jovens institucionalizados. Relatório de estágio realizado no âmbito do Mestrado em Sociologia. Faculdade de Letras da Universidade do Porto. https://hdl.handle.net/10216/124898
[vii] Projeto Interaging USP. Escola de Artes Ciências e Humanidades | EACH. https://sites.usp.br/interaging/o-projeto/
