ENVELHECERES — Envelhecer bem é possível

A idade já não explica tudo

As demências precoces estão a aumentar e a surgir em idades cada vez mais jovens, revelando que a idade já não explica tudo. Durante décadas acreditámos que envelhecer era, inevitavelmente, adoecer. Hoje sabemos que isso não é verdade: até 40% dos casos de demência podem ser prevenidos ou adiados através de mudanças nos estilos de vida ao longo do curso de vida. Mas sabemos também que estamos a adoecer mais cedo — e de forma desigual.

Quando, num trabalho académico de 2020 (Estilos de Vida e Envelhecimento), referi que “muitas doenças crónicas podem não ser uma consequência inevitável do envelhecimento, se um estilo de vida saudável for adotado ao longo da vida” (Canhestro & Basto, 2016: 28), essa afirmação era sobretudo uma convicção fundamentada. Em 2025, tornou‑se evidência robusta.

O envelhecimento deixou de ser apenas um fenómeno demográfico. É uma questão política, territorial, ética e profundamente humana. E é também um espelho das escolhas — individuais e coletivas — que fazemos ao longo da vida.

O que mudou desde 2020 nas demências precoces?

A Década do Envelhecimento Saudável (OMS, 2021–2030) reforçou a necessidade de ambientes favoráveis, participação social e políticas públicas que reduzam desigualdades. Mas a realidade portuguesa mostra um país que envelhece depressa e de forma desigual.

O Alentejo, que analisei no estudo de Canhestro & Basto (2016), continua a ser o território com maior índice de envelhecimento e maior prevalência de doenças crónicas. A relação entre estilos de vida, saúde e território é hoje incontornável.

A Lancet Commission on Dementia (2020, 2022, 2024) confirmou que fatores como sedentarismo, isolamento, alimentação pobre, stress crónico, perda auditiva, poluição e baixa escolaridade acumulam risco ao longo da vida. Não são inevitáveis. São modificáveis.

Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission – The Lancet

Estilos de vida e risco de demências precoces

Os quatro artigos que sustentaram o meu trabalho de 2020 continuam válidos e relevantes:

  • Canhestro & Basto (2016) — mostraram como os estilos de vida saudáveis dependem de intervenções comunitárias, participação e políticas locais.
  • Cavalcanti et al. (2016) — reforçaram a ligação entre envelhecimento ativo e estilos de vida.
  • Santos & Freitas (2018) — evidenciaram a importância de equipas multidisciplinares.
  • Mazo et al. (2019) — mostraram que mesmo os centenários beneficiam de atividade física regular.

Mas a ciência avançou. Hoje sabemos que:

  • O sono é determinante: dormir menos de 6 horas aos 50–60 anos aumenta o risco de demência em 30%.
  • A microbiota intestinal influencia inflamação, humor e cognição.
  • O stress crónico acelera o envelhecimento biológico medido por relógios epigenéticos.
  • A solidão tem impacto equivalente ao tabagismo em termos de mortalidade.
  • A atividade física é o fator isolado mais protetor para a saúde cognitiva.

A OMS publicou em 2022 o Brain Health Framework, que integra estas dimensões numa visão holística da saúde cerebral ao longo da vida.

Território, participação e saúde cognitiva

Em 2020 escrevi que era urgente articular “envelhecimento ativo e saudável – desenvolvimento local”, perspectiva que em 2021 conduziu à criação do Grupo de Trabalho Envelhecimento e Desenvolvimento Local da Animar – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local. Hoje, essa urgência é absoluta.

Os municípios são atores centrais na criação de ambientes saudáveis:

  • espaços públicos caminháveis;
  • programas intergeracionais;
  • redes de voluntariado cognitivo;
  • políticas alimentares locais;
  • transportes acessíveis;
  • centros comunitários vivos.

Mas falta o elemento mais difícil: participação cidadã. Também porque faltam iniciativas para o (re)empoderamento das pessoas mais velhas. E são possíveis, basta querer fazer, envolver e ouvir.

No estudo de Canhestro & Basto (2016), os profissionais reconheciam que “a participação dos cidadãos é deficiente por ausência de cultura participativa”. Em 2025, essa realidade mantém‑se.

Sem participação, não há corresponsabilidade. Sem corresponsabilidade, não há mudança de estilos de vida.

Empoderamento Ativo das Pessoas Mais Velhas na Comunidade ►

Porque estão as demências precoces a surgir mais cedo?

A antecipação das demências resulta de uma combinação de fatores:

  • Sedentarismo estrutural, agravado pela digitalização.
  • Dietas ultraprocessadas, que promovem inflamação crónica.
  • Stress laboral e precariedade, que fragilizam a saúde mental.
  • Desigualdades territoriais, que limitam acesso a serviços.
  • Isolamento social, que reduz estímulos cognitivos.
  • Poluição, sobretudo em áreas urbanas densas.

A Lancet Commission estima que intervenções comunitárias, políticas públicas e mudanças de estilo de vida poderiam atrasar o início das demências em milhões de pessoas.

O que podemos fazer para prevenir demências precoces — agora

Criar ecossistemas locais de saúde cognitiva

  • Percursos pedonais seguros
  • Espaços de convívio intergeracional
  • Programas de literacia em saúde
  • Oficinas de memória e criatividade
  • Hortas comunitárias e mercados locais

Educar para o envelhecimento desde a infância

Como escrevi em 2020: “o comportamento adotado até aos cinquenta anos terá grande impacto na saúde aos oitenta”. Hoje sabemos que começa ainda mais cedo.

Integrar a medicina antienvelhecimento de forma ética

Biomarcadores, epigenética, sono, nutrição e hormonas devem ser integrados em políticas públicas, não apenas em clínicas privadas.

Criar Planos Gerontológicos Locais de nova geração

Com diagnóstico participativo, indicadores de saúde cognitiva, metas de atividade física, combate ao idadismo e avaliação anual.

Conclusão: envelhecer bem é possível — e começa cedo

O envelhecimento não é um problema. É uma conquista. O problema é não estarmos a preparar‑nos para viver mais anos com qualidade.

Os estilos de vida continuam a ser determinantes. As políticas públicas continuam a ser insuficientes. A participação cidadã continua a ser frágil. E as demências continuam a chegar mais cedo.

A pergunta que deixei em 2020 permanece atual:

Estamos disponíveis para olhar para o envelhecimento de forma inovadora, alterando estilos de vida e transformando os territórios onde vivemos?

A resposta depende de todos nós — e do que decidirmos fazer agora para reduzir o risco de demências precoces e promover saúde cognitiva ao longo da vida.

COMO VIVER ATÉ OS 100: OS SEGREDOS DAS ZONA AZUIS – JÁ DISPONÍVEL | TOP 10 NETFLIX

Blue Zones: Uma Conversa Sobre Longevidade e Comunidade ►

FAQ‘s

O que são demências precoces? As demências precoces são quadros de declínio cognitivo que surgem antes dos 65 anos e estão fortemente associados a fatores modificáveis ao longo da vida.

Como podemos prevenir demências precoces? A prevenção passa por atividade física regular, alimentação saudável, sono adequado, redução do stress, participação social e ambientes favoráveis à saúde cognitiva.

Bibliografia

Canhestro, A. S.; Basto, M. L. (2016). «Envelhecer com Saúde: Promoção de Estilos de Vida Saudáveis no Baixo Alentejo». Revista Pensar Enfermagem, Vol. 20, N.º 1, Unidade de Investigação & Desenvolvimento em Enfermagem (ui&de), Unidade Integrada da Escola Superior de Enfermagem de Lisboa, pp. 27 – 51.

Canhestro, A. S. (2018). Envelhecer com saúde. Promoção de estilos de vida saudáveis no Baixo Alentejo. Tese especialmente elaborada para a obtenção do grau de Doutor em Enfermagem, apresentada à ESEL – Escola Superior de Enfermagem de Lisboa, Universidade de Lisboa, 2018.

Cavalcanti, A. D.; Moreira, R. S.; Barbosa, J. M. V.; Silva, V. L. (2016). «Envelhecimento Ativo e Estilo de Vida: Uma Revisão Sistemática da Literatura», Revista Estudos Interdisciplinares sobre o Envelhecimento, v. 21, n. 1, pp. 71-89, Porto Alegre.

Livingston G, Huntley J, Liu K et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. The Lancet, 2024; 404, 572-628

Mazo, G. Z.; Franco, P. S.; Pereira, F. S.; Hoffmann, L.; Strell, I. A. (2019). «Estudo com Centenários: Atividade Física, Estilo de Vida e Longevidade», Revista Estudos Interdisciplinares sobre o Envelhecimento, v. 24: Suplemento Congresso SIAFTI, pp. 259-274, Porto Alegre.

Optimizing brain health across the life course: WHO position paper.
Geneva: World Health Organization; 2022. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO; https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/3.0/igo/

Santos, P. M.; Freitas, C. (2018). «Multidisciplinariedade na Promoção do Envelhecimento Ativo: Criação de uma equipa multidisciplinar no concelho de Sabrosa». II Congresso Ibero-Americano de Intervenção Social – Direitos Sociais e Exclusão,Lema d’Origem – Editora, Ld.ª, Carviçais, Torre de Moncorvo, pp. 439 – 452.

Olá, sou Raul Jorge Marques

Formação Avançada pós-Universitária em Gerontologia Aplicada – Vertente Social e Clínica. Mestre em Geografia Humana – Desenvolvimento Regional. Licenciado em Geografia e em Geografia-Ramo de Formação Educacional. Consultor independente em desenvolvimento territorial e gerontologia aplicada. Coordenador Científico na ANIMAR, do Grupo de Trabalho Envelhecimento e Desenvolvimento Local, promovendo envelhecimento ativo e territórios inclusivos.

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