ENVELHECERES — Envelhecer bem é possível

Empoderamento Ativo das Pessoas Mais Velhas na Comunidade

Envelhecimento ativoGerontologia

Introdução

Este artigo é uma adaptação do texto publicado na Revista Gerar Identidades nº 3, em setembro de 2023, no âmbito do Projeto CLDS 4G do Concelho de Arraiolos. Retorno ao tema porque os CLDS 5G já estão no terreno e continuo a considerar que pouco se faz pelo empoderamento das pessoas mais velhas.

É possível fazer mais, basta alguns reajustes e disponibilidade!

O artigo está disponível em: https://monte-ace.pt/site/projetos/gerar-identidades/REVISTA_GI_3EDICAO.pdf

Empoderar as pessoas mais velhas: que intervenção local?

A intervenção local é essencial. Ela tem de promover a participação ativa das pessoas mais velhas. As atividades desenvolvidas para elas e com elas podem ter resultados positivos, especialmente quando há uma participação ativa nas estratégias, medidas e ações que lhes são destinadas. Esta participação assegura que as pessoas mais velhas não sejam vistas como “socialmente descartáveis” e pode trazer inovação, tanto para elas quanto para a comunidade.

O envolvimento dos/as técnicos/as nos processos participativos

Técnicos/as devem tratar as pessoas mais velhas como parceiras no planeamento das estratégias, medidas e ações. Este modelo colaborativo pode ser trabalhoso, mas é essencial para garantir que as necessidades e opiniões das pessoas mais velhas são consideradas. Inovar com o apoio das pessoas mais velhas é crucial para intervir com sucesso.

Adapte-se, invente-se, faça-se diferente, mas sempre com o contributo das pessoas para quem e com quem se trabalha, sejam mais ou menos velhas!

Benefícios do trabalho com as pessoas mais velhas

O trabalho com as pessoas mais velhas traz vários benefícios:

  • Melhoria da qualidade de vida: As atividades promovem a socialização, participação comunitária e envolvimento em atividades físicas, culturais e intelectuais, reduzindo o isolamento social e aumentando a autoestima e o bem-estar geral.
  • Promoção da saúde e prevenção de doenças: Programas de exercícios físicos adequados podem melhorar a força muscular, flexibilidade e equilíbrio, reduzindo o risco de quedas e promovendo a autonomia. Campanhas de conscientização sobre cuidados de saúde e alimentação saudável também são importantes.
  • Estímulo cognitivo e emocional: Atividades como oficinas de arte, grupos de leitura e aulas de música ajudam a manter a mente ativa, estimulando a memória, criatividade e habilidades cognitivas, além de proporcionar um espaço para expressão emocional e desenvolvimento de relacionamentos significativos.
  • Estímulo à participação: Os focus group contribuem para o reconhecimento e valorização pessoal, por serem ouvidas, por verem que a sua opinião importa, o que fortalece a autoestima e o sentimento de pertença; a participação ativa estimula vínculos afetivos e permite expressão emocional, reduzindo sentimentos de isolamento e contribuindo para a melhoria da saúde emocional; debater ideias, propor soluções e refletir sobre temas complexos promove agilidade mental e criatividade. Os Laboratórios de Envelhecimento são espaços privilegiados para estas dinâmicas.

Desafios e evidências da participação das pessoas mais velhas

Os desafios lançados aos grupos de pessoas mais velhas com quem trabalhei no Município de Arraiolos incluíram a construção de uma ideia-chave coletiva do envelhecimento, uma estratégia-chave sobre o que se deseja para o envelhecimento e questões transversais à política gerontológica local.

A participação ativa das pessoas mais velhas nos processos de decisão é essencial para garantir que as suas necessidades são atendidas e o envolvimento que conseguimos foi demonstrativo, assim como a satisfação dos/as presentes por estarmos a recolher a sua opinião, por os/as estarmos a ouvir com atenção, por estarmos lá!

Dos resultados obtidos salientam-se algumas evidências identificadas pelas pessoas mais velhas:

  • Envolvimento na conceção das estratégias, medidas e ações: serem ouvidos/as, darem ideias e opiniões, sugerirem opções de escolha, envolverem-se na dinamização de atividades, dinâmicas e divertidas.
  • Tornar localmente o processo de envelhecimento mais agradável e feliz: evidência clara do convívio, referindo-se a falta de espaços dedicados à vida comunitária e a falta de transportes como uma limitação aos contactos e à socialização.
  • Melhorar e reforçar a integração das pessoas mais velhas na vida da freguesia/concelho: articulação de tempos livres com os mais jovens, promovendo a intergeracionalidade; promoção de um maior envolvimento na Associação de Reformados, em convívios e festas; maior auscultação por parte de quem decide.
  • “Ensinar a envelhecer” / “Construir um novo Plano de Vida” /” Plano B”: atividades intergeracionais, frequência de atividades antes da reforma, sessões de esclarecimento para ajudar a preparar a reforma, alertar para a necessidade de haver um Plano B.

Política Gerontológica vs Planos Gerontológicos Locais: uma visão para o futuro

De acordo com o Plano para a Década do Envelhecimento Saudável 2020-2030 da Organização Mundial de Saúde, é necessário um esforço conjunto de governos, sociedade civil, associações de pensionistas, instituições académicas, meios de comunicação, organismos internacionais, profissionais e setor privado para melhorar a vida das pessoas mais velhas.

Por isso, defendemos que a política gerontológica local deve ser construída com a participação das pessoas mais velhas, aproveitando o seu conhecimento prático e evitando estratégias de “top down”. Os Conselhos Municipais das Pessoas Mais Velhas e os Planos Gerontológicos Locais são instrumentos promotores desta participação.

A pertinência do Plano Gerontológico Local está sustentada em quatro aspetos fundamentais:

  • Construir uma intervenção gerontológica local sustentada na cooperação e colaboração entre as diferentes entidades que intervêm no apoio ao processo de envelhecimento;
  • Construir uma política gerontológica local participada, em que para além das entidades que intervêm no apoio ao processo de envelhecimento, estão também envolvidas as pessoas mais velhas no desenho das ações, medidas e estratégias para o envelhecimento à escala local;
  • Não ignorar o conhecimento prático que as pessoas mais velhas têm do processo de envelhecimento;
  • Não alimentar a falsa premissa de que se sabe quais as necessidades dos destinatários/as, sem trabalhar com eles/as, sem os/as ouvir, sem ter em consideração a sua experiência prática do processo de envelhecimento.

Plano Gerontológico Local ►

Conclusão: O Futuro das Políticas Gerontológicas

Acreditamos que, no futuro, as pessoas mais velhas exigirão envolver-se ativamente no planeamento e implementação de políticas públicas voltadas para o envelhecimento saudável e inclusão social!

A experiência das pessoas mais velhas pode ser uma mais-valia nas comissões locais que debatem questões relacionadas com direitos, acessibilidades, cuidados de saúde, habitação adequada, ofertas de trabalho, transportes, voluntariado e outras áreas. A participação ativa das pessoas mais velhas enriquece a comunidade, aproveitando o seu conhecimento, experiência e contribuições únicas.

Nota final – Um agradecimento especial às pessoas mais velhas do concelho de Arraiolos, com quem tive o privilégio de trabalhar. A sua participação é fundamental para a construção de uma sociedade mais inclusiva e respeitadora das necessidades de todos e de todas. Foi bom ouvir dizer: “venha cá mais vezes porque, pelo menos, temos quem nos ouça“. Bem hajam!

Olá, sou Raul Jorge Marques

Formação Avançada pós-Universitária em Gerontologia Aplicada – Vertente Social e Clínica. Mestre em Geografia Humana – Desenvolvimento Regional. Licenciado em Geografia e em Geografia-Ramo de Formação Educacional. Consultor independente em desenvolvimento territorial e gerontologia aplicada. Coordenador Científico na ANIMAR, do Grupo de Trabalho Envelhecimento e Desenvolvimento Local, promovendo envelhecimento ativo e territórios inclusivos.

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