Envelhecimento ativo: um percurso
O envelhecimento não é um destino, mas um percurso em transformação. Esta página propõe uma leitura atualizada e integrada do envelhecimento ativo, como desafio individual, social e político.
O que é envelhecimento ativo?
O conceito de envelhecimento ativo, tal como definido pela Organização Mundial da Saúde (2002), assenta na otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida à medida que envelhecemos.
Este conceito:
- Afasta-se da ideia de declínio inevitável;
- Reconhece a capacidade de cada pessoa para continuar a participar na sociedade;
- Valoriza os fatores que influenciam o envelhecimento, como cultura, género, meio físico, comportamentos e acesso a serviços sociais e de saúde.
Caminhos para um envelhecimento com qualidade
Viver mais anos exige transformações nas políticas e nos modos de vida. Entre os principais desafios estão:
- Aumentar a vida ativa e repensar o tempo da reforma;
- Vencer preconceitos no mercado de trabalho sobre a idade;
- Melhorar as condições laborais para acompanhar o envelhecimento;
- Promover aprendizagens ao longo da vida, também fora do contexto profissional;
- Adaptar as habitações com segurança e tecnologia acessível;
- Reforçar a coesão social em zonas residenciais;
- Investir na mobilidade e transportes, sobretudo fora dos grandes centros;
- Reconhecer as desigualdades territoriais e demográficas — envelhece-se de forma diferente no país urbano e rural.
Reconfigurar o envelhecimento
Ao longo da vida, ocorrem mudanças biológicas, psicológicas e sociais que moldam o modo como envelhecemos. No entanto, pode haver espaço para reconfigurar esse processo, para alentecer o envelhecimento, promovendo:
- Atividade intelectual, física e sexual regular;
- Acesso a acompanhamento médico adequado e prevenção;
- Monitorização de parâmetros hormonais com recurso a medicina especializada;
- Educação sobre novas abordagens da longevidade e da saúde funcional.
A chamada medicina da longevidade ou antienvelhecimento, embora ainda pouco acessível, aponta para um futuro onde o envelhecimento possa ser mais personalizado, monitorizado e participado.
A4M – American Academy of Anti-Aging Medicine é líder para a educação médica continuada em medicina da longevidade, resiliência metabólica e cuidados com a pessoa como um todo. O ramo A4MO, Metabolic Medical Institute (MMI), oferece educação ao nível de pós-graduação para qualificar profissionais em todos os aspetos da medicina antienvelhecimento, com recursos de aprendizagem que utilizam métodos mistos, presenciais, on-line, sessões síncronas e assíncronas.
https://www.a4m.com/about-a4m-mmi.html
Longevidade e imaginário social
O debate sobre a longevidade não é apenas técnico — é também simbólico e cultural. Algumas obras de ficção, como o romance “Imortalidade”, de Rachel Heng (2019), ensaiam modelos de sociedade baseados em vidas prolongadas, seleções genéticas e valores alterados. Estas projeções, apesar de utópicas, ajudam a refletir sobre:
- A relação entre tempo e qualidade de vida;
- A importância da justiça social na velhice;
- A necessidade de políticas públicas centradas na dignidade e equidade.
Redes sociais, colaboração e comunidade
O envelhecimento ativo também depende das redes de apoio, sejam elas familiares, de amizade ou de voluntariado. A qualidade dessas redes influencia o bem-estar físico e emocional, e abre caminho a novas formas de viver em comunidade.
Novas formas de viver a velhice
- Cohousing sénior: habitação colaborativa onde pessoas mais velhas vivem com autonomia, mas partilham espaços comuns e decisões comunitárias.
O «cohousing», modelo habitacional criado na Dinamarca, tem vindo desde a década de 80 do século XX a ganhar adeptos noutros países. Na prática, é uma opção pessoal de envelhecer ativamente na companhia de amigos, partilhando as decisões da vida em comum. É uma espécie de «vila privada» em que cada morador ou casal tem a sua casa e conta com espaços comuns para convivência, lazer, etc.
- Aldeias de bem-estar: projetos de fixação populacional em territórios de baixa densidade, com apoio integrado e serviços contínuos, ancorados em unidades de cuidados e dinâmicas de vizinhança ativa.
Primeira ‘Aldeia Lar’ para idosos do país existe há 30 anos no Algarve – Postal
REPORTAGEM: “Aldeia” social em Águeda permite que idosos possam viver com autonomia
Habitação colaborativa para idosos inaugurada em Pombal
As «Aldeias de Bem-estar» são uma opção interessante em termos de desenvolvimento dos territórios de baixa densidade.
Permitem pensar na construção de territórios de bem-estar e de coesão, através de investimento público privado ou misto que promova o aproveitamento do edificado devoluto para a instalação de pessoas mais velhas que se queiram fixar num modelo que incorpore “unidades centrais de apoio, onde são servidas as refeições, se prestam cuidados e assistência médica (cuidados paliativos, serviços geriátricos, equipas no domínio da gerontologia 24 por dia, existência de médicos e enfermeiros sempre disponíveis,…).
Envelhecimento ativo: uma responsabilidade partilhada
Promover o envelhecimento ativo é um compromisso coletivo. Requer políticas públicas que respeitem a diversidade territorial, respostas locais inovadoras e uma visão integrada da longevidade como oportunidade — não como fardo.
Como bem refere Papaléo NETTO (2006: 4), a manutenção da vida saudável de um «idoso», apesar de ser um dever da sociedade, não é politicamente encarada como um investimento de futuro, a que acresce o facto de se estar perante “um grupo etário politicamente ainda muito frágil”, o que dificulta o atendimento das suas reivindicações mais elementares.
Este olhar sobre o envelhecimento ativo atravessa o trabalho da Envelheceres nas áreas de formação, intervenção comunitária e planeamento gerontológico.
Bibliografia
– GUARIENTO, Maria Elena; NERI, Anita Liberalesso; FATTORI, André; PEREIRA, Alexandre Alves (2013). «Pesquisa em Gerontologia», in FREITAS, Elizabete Viana; PY, Ligia et a. (2013). Tratado de Geriatria e Gerontologia. 3ª Edição, Editora Guanabara Koogan, Rio de Janeiro.
– HALL, G. Stanley (1922). Senescence, the last half of life, D. Appleton and Company, New York
– HENG, Rachel (2019). “Imortalidade”, Bertrand Editora, Lisboa
– NETTO, Matheus Papaléo (2006). «O Estudo da Velhice: Histórico, Definição do Campo e Termos Básicos». In FREITAS, E. V. et al. (Org). Tratado de Geriatria e Gerontologia. 2 edição, Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, pp. 2-12.
– World Health Organization (2002). Active Ageing. A Policy Framework. Second United Nations World Assembly on Ageing, Madrid, Spain, April 2002.
