ENVELHECERES — Envelhecer bem é possível

Introdução

Por que planear o envelhecimento ativo é o maior ato de liberdade que temos?

Por que devo perguntar: O que quero ainda fazer nos 30 anos que me faltam antes de morrer?

Há perguntas que evitamos durante décadas, como se adiar a reflexão fosse uma forma de ganhar tempo. Mas não é. A pergunta “O que quero ainda fazer nos 30 anos que me faltam antes de morrer?” não é um exercício mórbido; é um convite à lucidez. É o ponto de partida para outra questão, ainda mais urgente: o que quero para o meu envelhecimento?

Vivemos mais anos, mas continuamos a planear pouco. Reformamo-nos sem um plano de vida, sem um mapa de prioridades, sem uma visão clara do que queremos construir, aprender, partilhar ou transformar. E, no entanto, temos pela frente três décadas de vida ativa, emocional, social e comunitária.

A verdade é simples: envelhecer bem não acontece por acaso. Acontece por participação.

Envelhecimento ativo e participação: porque continuamos a decidir pelos mais velhos sem os ouvir?

À escala local, multiplicam-se programas, atividades e iniciativas dedicadas às pessoas mais velhas. Mas quantas foram realmente ouvidas antes de esses planos serem desenhados? Quantas participaram na definição das prioridades? Quantas foram tratadas como especialistas da sua própria experiência?

Ouvir as pessoas mais velhas não é um gesto simbólico. É uma metodologia. É uma ética. É uma estratégia de desenvolvimento local.

E é aqui que entra o trinómio que sustenta qualquer política de envelhecimento séria: educação – sensibilização – participação. É imprescindível assegurar a ligação entre as «visões académicas/ teóricas» e a «experiência de ter mais idade/ prática»!

Sem isto, continuamos a produzir respostas para um público que não foi convidado a formular as perguntas.

Despertar para o envelhecimento ativo: uma metodologia que devolve poder

A metodologia que desenvolvemos — as Conversas de Despertar e as Conversas de Igual para Igual — assenta num modelo de focus group estruturado, que chamamos Consciência Multifocal.

É multifocal porque:

  • levanta múltiplos focos de análise
  • integra diferentes dimensões da vida das pessoas mais velhas
  • transforma vivências individuais em conhecimento coletivo
  • devolve poder a quem o perdeu com a reforma: poder de compra, poder reivindicativo, poder participativo

Os Grupos de Consciência Multifocal (GCM) são, por isso, mais do que uma técnica. São um espaço de cidadania ativa. São um lugar onde as pessoas mais velhas deixam de ser “beneficiárias” e passam a ser coautoras das estratégias que lhes dizem respeito. São uma ferramenta poderosa para construir políticas de envelhecimento ativo.

GCM: de nós para nós — participação real para um envelhecimento ativo e feliz

Os GCM funcionam como conversas estruturadas, com 10 a 20 participantes, divididos em subgrupos. O objetivo não é chegar a consenso, mas recolher informação rica, emocional, prática e vivida.

Objetivos principais dos GCM

  • envolver diferentes pessoas na abordagem gerontológica
  • descobrir e aprofundar opiniões
  • validar informação e clarificar perceções
  • identificar variáveis-chave para políticas gerontológicas locais
  • trabalhar e validar análises SWOT
  • construir orientações estratégicas de curto, médio e longo prazo

Desenhei esta metodologia na sequência do meu envolvimento com a Animar – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local, no Grupo de Trabalho Envelhecimento e Desenvolvimento Local, criado em 2020 e formalizado em 2021.

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É uma metodologia testada no concelho de Arraiolos em 2022/2023, no Projeto Gerar Identidades da Monte-Desenvolvimento do Alentejo Central. ACE.

Empoderamento Ativo das Pessoas Mais Velhas na Comunidade ►

Etapas do trabalho colaborativo: um modelo simples, eficaz e replicável

1. Introdução (10 min)

Apresentação da equipa, dos participantes e dos objetivos.

2. Quebra-gelo (20 min)

Atividades relacionais que criam confiança e abrem espaço à partilha.

3. Conversa em subgrupo (60 min)

Perguntas orientadoras, moderadores de apoio e fichas de trabalho estruturadas.

4. Conclusões (30 min)

Cada relator apresenta a síntese do subgrupo; o facilitador integra e valida.

As perguntas que mudam tudo

As sessões temáticas trabalham questões estratégicas como:

  • Qual o maior problema sentido no dia-a-dia?
  • Como ocupar melhor os tempos livres?
  • Faz sentido voltar a trabalhar após a reforma?
  • Como criar incubadoras de empreendedorismo sénior?
  • Como envolver as pessoas mais velhas no desenho das estratégias locais?
  • Como tornar o envelhecimento mais feliz e mais justo?

E questões transversais como:

  • Como reforçar a integração social das pessoas mais velhas?
  • Como combater o idadismo intergeracional?
  • Como valorizar talentos, saberes e a economia grisalha?
  • Como atrair mais pessoas para a aprendizagem ao longo da vida e para o voluntariado?
  • Como criar redes locais de cuidadores qualificados?

Estas perguntas não são teóricas. São ferramentas de transformação.

Atividades agregadoras: do pensamento individual à visão coletiva

No final, cada grupo é desafiado a:

  1. Consensualizar uma ideia-chave de envelhecimento — O que é envelhecer?
  2. Definir uma estratégia-chave para essa visão — O que queremos para o nosso envelhecimento?

É aqui que a metodologia revela o seu poder: transforma vivências em visão, visão em estratégia, estratégia em ação.

Conclusão: envelhecer é um ato político — e profundamente pessoal

Os cidadãos mais velhos são os maiores detentores do conhecimento sobre o envelhecimento vivido. Ignorá-los é desperdiçar sabedoria, experiência e capacidade de transformação.

Empoderar as pessoas mais velhas não é um slogan. É uma necessidade democrática. É uma urgência social. É uma oportunidade económica. E é, acima de tudo, um compromisso ético.

E porque falar de participação implica também olhar criticamente para as políticas públicas que moldam o envelhecimento…

O Estatuto da Pessoa Idosa, tal como foi aprovado, continua a reduzir as pessoas mais velhas a categorias demográficas abstratas. Isso não empodera; pelo contrário, pode reforçar estereótipos e ocultar desigualdades internas, como a pobreza ou a deficiência. O que realmente transforma é a participação: pessoas mais velhas conscientes, informadas e capazes de defender os seus direitos no território onde vivem.

Se queremos envelhecer melhor, temos de começar por ouvir quem já está a envelhecer agora. Trabalhar com as pessoas mais velhas nos seus territórios. Mostrar-lhes que não perderam poder, mas que apenas não estão a conseguir exercê-lo.

Envelhecimento ativo

Palavras mais valorizadas nas atividades desenvolvidas com as pessoas do Gerar Identidades. Destacamos nas 20 primeiras referências «atividades, convívio, pessoa, saúde, Bolsas de Cuidadores e Ouvidores, dar, reforma, casa, freguesia, família».

Olá, sou Raul Jorge Marques

Formação Avançada pós-Universitária em Gerontologia Aplicada – Vertente Social e Clínica. Mestre em Geografia Humana – Desenvolvimento Regional. Licenciado em Geografia e em Geografia-Ramo de Formação Educacional. Consultor independente em desenvolvimento territorial e gerontologia aplicada. Coordenador Científico na ANIMAR, do Grupo de Trabalho Envelhecimento e Desenvolvimento Local, promovendo envelhecimento ativo e territórios inclusivos.

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