Sexualidade e envelhecimento: entre o silêncio e a liberdade
A sexualidade é parte integrante da identidade humana em todas as fases da vida. Porém, continua a ser um tema envolto em silêncio, preconceito e desconhecimento, sobretudo no envelhecimento.
Esta reflexão baseia-se nas conclusões do nosso Estudo de Avaliação Multidimensional do Envelhecimento Ativo e Saudável (2022), desenvolvido no âmbito do Grupo de Trabalho Envelhecimento e Desenvolvimento Local da ANIMAR. E reforçamos: a sexualidade deve continuar a ser vivida, respeitada e valorizada em qualquer idade.
O que entendemos por sexualidade?
Segundo uma definição amplamente citada por especialistas consultados pela OMS (2002), a sexualidade é uma dimensão biopsicossocial e cultural, que engloba:
- Sexo, género e orientação sexual
- Intimidade, prazer, desejo e reprodução
- Crenças, práticas, valores e relações interpessoais
- Fatores biológicos, psicológicos, éticos, históricos e espirituais
É, portanto, muito mais do que o ato sexual — envolve vínculos, expressão afetiva, e bem-estar.
Em 2002 um grupo de especialistas respondeu a uma consulta da OMS sobre o conceito de sexualidade. Apesar da sua perspetiva não ter sido oficialmente reconhecida, é importante referi-la: “a sexualidade é um aspeto central do ser humano ao longo da vida e inclui o sexo, género, identidades e papéis, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução. A sexualidade é experienciada e expressa através de pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, comportamentos, práticas, papéis e relações … A sexualidade é influenciada pela interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais, económicos, políticos, culturais, éticos, legais, históricos, religiosos e espirituais” (Pontes 23-24).
Senescência ≠ Senilidade: desfazer equívocos
Quando falamos da sexualidade na velhice, importa distinguir:
- Senescência: alterações fisiológicas naturais do envelhecimento (ex.: cabelos brancos, rugas).
- Senilidade: alterações fisiopatológicas, como défices cognitivos ou funcionais — que não são inevitáveis nem exclusivas da idade avançada.
A perda de desejo sexual ou a disfunção erétil, por exemplo, não são regra, e podem ser acompanhadas por estratégias de promoção hormonal, abordagem médica e práticas de saúde sexual adaptadas.
Disfunção erétil (DE) – dificuldade em obter e/ou manter uma ereção adequada ao coito satisfatório para ambos os intervenientes e que resulta de uma redução de afluxo sanguíneo e/ou drenagem venosa anormal, afetando claramente a autoestima, mas que é passível de correção após deteção das causas e também com o apoio da medicina antienvelhecimento.
Diminuição da líbido – há suplementos como o «tribulus terrestris» e a «maca peruana» – Lepidium meyeniique – que podem melhorar a líbido, assim como a suplementação com DHEA – desidroepiandrosterona, uma hormona que começa a diminuir a partir dos 30 anos e que interfere na produção da testosterona e do estrogénio.
Sexualidade na velhice: estigma ou liberdade?
Infelizmente, o estereótipo do/a idoso/a assexuado/a continua presente em muitos contextos familiares, institucionais e mediáticos. Este preconceito:
- Fragiliza o direito à intimidade
- Reduz a autoestima e o bem-estar emocional
- Ignora que relações afetivas e sexuais continuam a ser significativas com o passar dos anos
O professor João Gorjão Clara, cardiologista e especialista em Medicina Geriátrica, escreveu para a Revista Saúda de junho de 2016 um excelente artigo intitulado “Sexualidade sénior: o desejo não tem prazo de validade” onde dá conta de uma situação que, pela sua importância, não merece ser ignorada.
“Há alguns anos, o filho de um dos meus doentes pediu-me ajuda: o pai, na altura com quase 90 anos e institucionalizado num lar, tinha encontros amorosos com uma utente. A direção da instituição julgava este comportamento desajustado e impróprio de um velho, ameaçando que o expulsaria se não se corrigisse”
Temos de perguntar:
- Qual a autoridade destas instituições para decretarem a «assexualidade» dos seus clientes/ utentes?
- A prática é indecorosa, ridícula, inútil, prejudicial à saúde?
- Quem o determina? Onde estão as evidências?
- Qual a qualificação gerontológica e/ ou geriátrica de quem o afirma?
Para o professor João Gorjão Clara, que entendeu contribuir para desmistificar o «tabu da sexualidade», o “envelhecimento sexual do homem começa aos 20 anos, progride no tempo, mas não se sabe em que idade se extingue …no caso das mulheres, a menopausa, por exemplo, prejudica mais a sua vida sexual sob o ponto de vista psicológico do que sob o ponto de vista hormonal…aquelas que mantêm uma vida sexual regular conservam a sua capacidade de líbido consideravelmente superior à das que a não têm”, referindo ainda que “a vida sexual na velhice é normal e saudável”!
ENCONTREI O AMOR AOS 70 ANOS EM UM SITE DE RELACIONAMENTO | Histórias de ter.a.pia + Liça Bomfim Bing Vídeos
Conhecimento, saúde e empoderamento
Envelhecer com liberdade implica:
- Reconhecer que a sexualidade não termina com a menopausa nem com a reforma
- Promover educação sexual transversal, desde a infância até à velhice
- Aceder a cuidados de saúde que respeitem o corpo e o desejo da pessoa mais velha
- Valorizar o autocuidado, o toque, o prazer e a afetividade como formas legítimas de expressão
Gott e Hinchliff (2003), citados por Catarina Ramos (2018: 4), “…recolheram dados relacionados com a importância e o papel do sexo junto de indivíduos com idades compreendidas entre os 52 e os 90 anos e concluíram que o sexo continua a ser visto como uma componente importante na relação emocional na população com idade mais avançada”.
Uma sociedade menos púdica, mais livre
Combater o tabu da sexualidade na velhice exige:
- Políticas públicas inclusivas;
- Capacitação de profissionais de saúde e educação;
- Inclusão do tema em programas intergeracionais;
- Sensibilização das famílias e da comunicação social.
Em termos intergeracionais é necessário refletir sobre:
- Importância da sexualidade para o equilíbrio emocional;
- Como se pode apoiar o sistema hormonal;
- Contributos da atividade física para a manutenção da sexualidade;
- Benefícios e riscos da sexualidade;
- Ser velho/a não é ser assexuado;
- Capacitação dos/as profissionais de educação e de saúde para propagarem o conhecimento.
Não se trata de promover um ideal sexualizado de vida longeva, mas sim de reconhecer que a intimidade e o afeto são direitos humanos ao longo de toda a existência.
📌 O «estereótipo do/a idoso/a assexuado/a» é uma aberração social de uma sociedade profundamente idadista que urge combater!
Editar página “Ética do Cuidado” ‹ — WordPress
Bibliografia
– MONTEIRO, Maria Heloyse L. et al (2021). «A sexualidade de idosos em meio aos riscos e tabus: uma revisão de literatura». Brazilian Journal of Health Review
– MOURA, Miriene N.; SILVA, Cláudia F. T.; SANTOS, Flávia F. (2019). A Sexualidade na Terceira Idade: o tabu que envolve os idosos. 22º Semana de Mobilização Científica – SEMOC, Universidade Católica do Salvador – UCSAL
– PONTES, Ângela Felgueiras (2011). Sexualidade: Vamos conversar sobre isso? Promoção do Desenvolvimento Psicossexual na Adolescência: Implementação e Avaliação de um Programa de Intervenção em Meio Escolar. Dissertação de Candidatura ao grau de Doutor em Ciências de Saúde Mental, submetida ao Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar da Universidade do Porto.
– RAMOS, C. I. C. F. (2018). Saúde Sexual e Envelhecimento: O papel dos fatores psicológicos e crenças sexuais. Dissertação (Mestrado Integrado de Psicologia) Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação – Universidade do Porto
– Clínica do Poder – Dr. José Pereira da Silva. https://www.clinicadopoder.pt/disfuncao-eretil/
