ENVELHECERES — Envelhecer bem é possível

Nota prévia

Esta semana, ao contemplar o Guindaste Titan, pensei na sua aparência e longevidade e como uma cosmética bem concebida soube rejuvenescer e conservar o maior guindaste a vapor do mundo, do século XIX.

Vê-lo ao final da tarde, do bar de praia Lais de Guia em Matosinhos, levou-me a refletir sobre como também nós, com o tempo, mudamos, renovamos e preservamos.

Este artigo nasce dessa contemplação: uma viagem pelas marcas visíveis do envelhecimento e pela identidade que construímos ao longo dos anos.

O Titan, testemunho de renovação e resistência — tal como nós, que envelhecemos com história e propósito. Fotografia do autor.

História – Titan – O renascer

Introdução

Envelhecer é um privilégio e um testemunho de uma vida cheia de histórias, aprendizagens e conquistas. As mudanças de aparência que surgem ao longo dos anos são sinais visíveis da nossa caminhada, e cada marca conta um capítulo da nossa história.

Inspirado no vídeo “Viagem Fantástica do Corpo Humano” do médico Drauzio Varella, um oncologista, cientista, escritor e comunicador brasileiro de 82 anos, este artigo convida à reflexão sobre como podemos olhar para o envelhecimento com mais aceitação, curiosidade e gratidão.

Ter direito à aparência que se quer, desde que se possa

Podemos ou não alterar a nossa aparência?

Claro que consideramos que cada pessoa que goste menos da sua aparência e tenha condições financeiras para voltar no tempo para trás, para onde se sinta mais confortável, o deve fazer, porque ainda somos donos de nós próprios.

Na manipulação da aparência lembro-me sempre da estética que o cantor Fernando Pereira resolveu fazer pelos 49 anos. Parecia ter recuado muito no tempo, o que ainda hoje se mantém.

Será que somos idadistas por manipular a aparência?

Não concordo, minimamente, com o alargamento do idadismo a tudo e mais alguma coisa, porque ser não idadista não é abdicar da vontade própria para seguir a que outros querem impor.

Regresso ao conceito que escrevi na introdução ao Glossário Anti-idadismo: As Pessoas Mais Velhas Não São Descartáveis” publicado pela ANIMAR em 2024.

“… há idadismo quando a idade é usada para categorizar e dividir as pessoas de maneira a causar prejuízos, desvantagens e injustiças, e para arruinar a solidariedade entre as gerações. Pode ser em relação às pessoas mais velhas ou às mais novas e na prática, é institucional (leis, regras, normas sociais, políticas e práticas institucionais), interpessoal (interação entre dois ou mais indivíduos) e pessoal (internalizado pela pessoa contra si própria, quando afirma, por exemplo, “já não tenho idade para vestir isto”; “já não é próprio para a minha idade”)”.

https://www.animar-dl.pt/biblioteca/glossario-anti-idadismo_as-pessoas-mais-velhas-nao-sao-descartaveis

O corpo em constante renovação: porque se altera a aparência?

A nossa máquina extraordinária

O nosso corpo é uma máquina extraordinária, sempre em transformação. Ao longo da vida, as células renovam-se continuamente, permitindo que nos adaptemos e superemos desafios. Cada ciclo de renovação é uma oportunidade de recomeço, mostrando a incrível capacidade do organismo de se reinventar.

Na verdade, o nosso corpo passa por uma “recauchutagem celular” da cabeça aos pés, em intervalos que variam entre 7 e 10 anos. As células de diferentes órgãos e tecidos renovam-se a ritmos próprios, dependendo do que cada uma precisa trabalhar para desempenhar as suas funções.

Se o ciclo de renovação celular está acontecendo constantemente, então por que envelhecemos?

A evidência das mudanças

Mesmo assim, é natural que, com o tempo, algumas mudanças se tornem mais evidentes.

Porque é que a aparência do nosso corpo muda tanto entre os 40 e os 70 anos?

Entre os 40 e os 70 anos, notamos diferenças na pele, nos cabelos, na audição, na visão, na postura e até na expressão do rosto.

Mas estas alterações são apenas uma parte da nossa evolução – refletem experiências, sorrisos, desafios superados e momentos de felicidade.

Efetivamente, segundo Drauzio Varella, aos 70 anos a nossa face é a 35 cópia da que tínhamos ao nascer. Uma cópia a cada 2 anos, em que as imperfeições se vão tornando mais aparentes, até serem muito evidentes, mais numas pessoas do que noutras.

Porque mudamos tanto?

A ciência explica que o envelhecimento resulta de pequenas alterações no nosso ADN, acumuladas ao longo dos anos.

Tal como uma cópia de uma cópia vai perdendo nitidez, as células também vão acumulando pequenas imperfeições. Mas, em vez de lamentar essas mudanças, podemos vê-las como sinais de «resiliência», aquele conceito milagroso da física dos materiais transposto com demasiado êxito para o domínio do social. Também, claro, como sinais de uma vida bem vivida, o que devemos ainda mais valorizar!

O espelho e a nossa identidade

Muitas vezes, olhamos o espelho e estranhamos a imagem refletida e nem sempre gostamos do que vemos, talvez até nos lembremos da famosa pergunta feita ao espelho e atribuída à rainha má da fábula da Branca de Neve:

“Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu?”

Também não vamos gostar da resposta!

Mas, em vez de procurar a juventude perdida, que tal valorizar a pessoa em que nos tornámos?

Cada traço do rosto é uma prova de maturidade, de afetos partilhados e de experiências únicas. O verdadeiro valor está na história que carregamos e na sabedoria que adquirimos.

No entanto, as únicas proibições a alterações estéticas ou outras estarão na saúde do próprio/a, a do corpo ou a financeira.

Mudança físicas: aceitar e cuidar

Com o passar dos anos, é normal notar alterações na audição, visão, ossos e energia. O esqueleto reflete bem o desgaste dos anos e os diferentes atropelos a que o fomos submetendo.

Mas há muito que podemos fazer para manter a qualidade de vida: praticar atividade física, alimentar-nos bem, manter a mente ativa, cultivar relações sociais e suplementar o que for necessário.

O autocuidado é um gesto de amor-próprio e contribui para o nosso bem-estar em todas as idades.

Alterações Fisiológicas do Envelhecimento e Alimentação ►

Aposentação: um novo começo ou uma chatice?

A reforma não precisa de ser sinónimo de inatividade, nem de chatice, na perspetiva de “o que ando para aqui a fazer?”

Pelo contrário, pode ser o início de uma fase vibrante, cheia de novas oportunidades.

Muitas pessoas descobrem paixões, dedicam-se ao voluntariado, aprendem algo novo ou simplesmente desfrutam de mais tempo com quem amam.

O importante é manter-se ativo, curioso e aberto a novas experiências e nunca se isolar.

Viver plenamente em todas as fases

A vida é feita de ciclos, e cada etapa tem a sua beleza. Envelhecer é continuar a crescer, a aprender e a contribuir para o mundo à nossa volta.

Em vez de temermos o futuro, celebremos o presente e tudo o que já conquistámos.

Afinal, cada dia, é uma nova oportunidade de viver mais um dia, com propósito, alegria e gratidão.

Olá, sou Raul Jorge Marques

Formação Avançada pós-Universitária em Gerontologia Aplicada – Vertente Social e Clínica. Mestre em Geografia Humana – Desenvolvimento Regional. Licenciado em Geografia e em Geografia-Ramo de Formação Educacional. Consultor independente em desenvolvimento territorial e gerontologia aplicada. Coordenador Científico na ANIMAR, do Grupo de Trabalho Envelhecimento e Desenvolvimento Local, promovendo envelhecimento ativo e territórios inclusivos.

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