Introdução
Lido mal com a finitude, mas este artigo fala dela, da morte e do processo de luto.
Soube ontem, dia 27 de setembro de 2025, que morreu mais um companheiro da minha jornada de muitos anos de ensino na Escola Secundária de Odivelas. O Carlos Barbosa partiu cedo, muito cedo. Fiquei triste, muito triste!
Se existir reencarnação, só espero que regresse um dia, para voltar a ser feliz!
https://conceito.de/reencarnacao
A morte chega cedo
A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.
O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.
E a tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.
Fernando Pessoa, 11-9-1933[i]

Finitude: a morte segundo Howarth
As quatro dimensões de pensamento acerca da morte enunciadas por Howarth[ii] são:
- «Morte boa» e «morte má» – correspondendo a primeira ao morrer durante o sono (morte rápida e fácil), não dando trabalho aos outros e a segunda a ser uma morte em que há mais trabalho para o cuidador e que se torna angustiante quando o cuidado é assegurado pelos filhos;
- Grau de controlo sobre este momento de vida – relacionado com a capacidade para influenciar o modo, o método, o momento de morrer e o processo da morte;
- Formas que podem tornar a morte legítima ou significativa – associadas a uma avaliação da vida em que a pessoa mais velha entende já não ser necessária para cuidar dos outros e ter visto os filhos, filhas, netos e netas crescerem;
- Questões relacionadas com os rituais de funeral – os rituais funerários são diversos, muito influenciados pelo contexto sociocultural e normalmente comunicados pelas pessoas mais velhas em vida.[iii]
O que é o luto complicado segundo o DSM-5-TR
O DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) distingue o luto complicado (ou prolongado) do luto normal.
Luto complicado
O luto complicado, persistente, distingue-se do luto normal pela existência de reações graves de luto que persistem pelo menos 12 meses (ou 6 meses em crianças) após a morte da pessoa próxima, interferindo na capacidade de funcionamento do indivíduo, que se pode ver confrontado com dificuldades diversas:
- Alucinações (auditivas ou visuais) com o falecido/a, reconhecendo temporariamente a sua presença (p. ex. ouvindo a sua voz ou vendo o falecido/a sentado na sua cadeira habitual);
- Saudade persistente do falecido/a;
- Culpabilidade sobre a gestão do «processo de morte» do falecido/a;
- Lentificação psicomotora;
- Queixas somáticas (p. ex. digestivas, dor, fadiga);
- Transtornos depressivos (foco na perda com pensamentos suicidas);
- Perda de confiança nos outros.
Efetivamente, trata-se de um luto prolongado, marcado por grande sofrimento. Frequentemente, esse processo exige intervenção psicológica ou médica. Além disso, é comum surgir um vazio existencial, que leva o sobrevivente a questionar se a vida continua a ter sentido sem o falecido/a.
Luto normal
O luto normal é uma resposta natural e esperada à perda de um ente querido. A intensidade das reações de luto tende a diminuir com o tempo.
Ainda assim, pode haver oscilações na intensidade do sofrimento, com picos em datas comemorativas ou aniversários da morte, mas sem a persistência de sintomas graves na maior parte do tempo.
Além disso, a pessoa consegue, gradualmente, reintegrar-se na vida quotidiana, mesmo que a perda continue a ter um significado profundo.
Como o apoio social influencia o luto na velhice
As perdas relacionais por morte têm um impacto devastador na vida de qualquer pessoa, talvez mais nas pessoas mais velhas pela finitude que se aproxima, sobretudo, tratando-se de familiares próximos, como o cônjuge, com quem a interrupção da partilha de vida pode determinar isolamento e afastamento do contacto com a sua rede social.
Por isso, é fundamental intervir em termos de apoio social de forma a devolver a pessoa mais velha à sua nova condição de vida.
A importância das redes
No que concerne às redes de apoio social a pessoas mais velhas constituídas por familiares e amigos, estas contribuem para moderar o stress se ancoradas no amor, na afeição, na preocupação e na assistência, que quando falta precipita situações de doença e até de mortalidade precoce[iv].
Contudo, a desigualdade nas trocas pode gerar efeitos negativos do suporte familiar na saúde das pessoas mais velhas.
Por exemplo, surgem sentimentos de insatisfação, stress e depressão. Isso ocorre, sobretudo, quando a pessoa reconhece uma situação de dependência, falta de autonomia e sobrecarga para o cuidador.
Além disso, há o peso da inabilidade pessoal para retribuir a ajuda recebida.
Sentimento de carga e paternalismo
Marília RAMOS (2002, op. cit.) chama à colação que o «sentimento de carga» por parte da pessoa mais velha e dos cuidadores é mais prevalente nas sociedades ocidentais, onde se hipervaloriza a produtividade e a retribuição, não se dando igual valor aos cuidados às pessoas mais velhas.
Também o paternalismo por parte dos filhos não ajuda, até porque está normalmente associado à menorização dos desejos e preferências, uma inversão de papéis que confronta as pessoas mais velhas com a condição de voltarem a assumir uma aparente condição de filhos, o que será sempre uma situação confrangedora e dificilmente benéfica para a saúde.
O processo de luto na pessoa mais velha
O processo de luto, segundo Maria Silva (2004)[v], pode influenciar negativamente a pessoa mais velha por provocar um desequilíbrio na sua vida, responsável por um sentimento de inércia, que poderá conduzir à interiorização de que a vida perdeu sentido.
Por isso, este sentimento merece uma particular atenção em termos de apoio social concertado e direcionado, que leve a pessoa a perceber que não foi a sua vida que findou, antes um «ciclo de vida».
Além disso, dever-se-á levar a pessoa a compreender que é imprescindível que enfrente a sua perda, muitas vezes de uma vida de longos anos de cumplicidade com o seu parceiro/a, para que possa dar continuidade à sua nova vida.
Não será um apoio fácil, por certo!
Apoio social: que preocupações?
No que concerne ao apoio social formal ou informal ao processo de luto, este pode ser prestado no seio da família, ser apoiado no quadro de uma das respostas sociais institucionais existentes, ser prestado por vizinhos, pelo padre ou por outras pessoas em igual circunstância de viuvez.
Todavia, porque há diferentes fases de luto (inicial, intermédia, recuperação), o apoio social deverá ter diferentes preocupações, respetivamente:
- Apoio mais personalizado e de proximidade na primeira fase (por parte da família, dos amigos, de profissionais ou de instituições);
- Apoio vocacionado para o esclarecimento da morte que ocorreu para que a pessoa em causa não se sinta responsável (segunda fase);
- Aposta em estratégias que conduzam a pessoa mais velha a melhorar a sua participação na sociedade e na família (terceira fase).
Segundo Lorenz (1988), citado por Maria Silva (2004), a escolha dos modelos de apoio por parte das pessoas enlutadas deve ter em conta três aspetos, respetivamente:
i. Necessidades dos sobreviventes;
ii. Localização geográfica;
iii. Recursos disponíveis.
Além disso, há modelos com diferentes durações no tempo (modelo de tempo limitado; modelo de apoio progressivo – semanal ou quinzenal; grupos de apoio mensal; grupos de autoajuda) e lideranças mais e menos profissionais, permitindo, para além do apoio, a socialização, que em muitos casos permanece após terminarem as sessões, sendo por isso uma porta de entrada para um novo ciclo de vida.
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A importância dos grupos de apoio
Entre as vantagens a destacar, considera-se a existência de grupos de apoio com objetivos pedagógicos (no exemplo de Lorenz o “grupo de apoio mensal”) que levam os enlutados e enlutadas a refletirem mensalmente sobre diferentes temas (introdução ao processo de luto, construção de sistemas de apoio, lidar com sentimentos de raiva ou solidão), assim como a existência de “grupos de autoajuda”, em que há partilha entre pessoas que experienciaram idênticas situações, sentindo-se por isso mais próximas.
Tendo em conta as condições de fragilidade das pessoas mais velhas enlutados e a fase do luto em que se encontram, as estruturas de apoio social qualificado serão sempre, na nossa perspetiva, uma mais-valia, mesmo que haja apoio familiar dedicado.
Efetivamente, se forem trabalhadas com base num elevado nível de conhecimento e/ou de experiência, facilitam uma melhor adaptação à viuvez, podendo ter benefícios na diminuição da solidão e do isolamento, no aumento da esperança com a nova vida, na aprendizagem de novos papéis, na construção de novas amizades, no ser capaz de falar com os outros sobre os problemas pessoais e os sentimentos.
Conforme refere Maria Silva (2004: 110),
torna-se “claro que o contexto social, formado por uma rede de apoio onde se incluem amigos, familiares, colegas também viúvas [os], vizinhos, etc. [e especialistas a trabalharem em diferentes respostas sociais formais] influencia a adaptação à viuvez e, por conseguinte, o processamento do luto”.
Voz Amiga ► ENVELHECERES — Envelhecer bem é possível
Bibliografia
[i] Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). 175. http://arquivopessoa.net/textos/2254
[ii] Leaman, Oliver; Howarth, Glennys (2004). Enciclopédia da Morte e da Arte de Morrer, Quimera Editores, Forte da Casa
[iii] Destacam-se alguns exemplos (https://www.hipercultura.com/6-rituais-de-morte-interessantes-ao-redor-do-mundo/): funeral de jazz de Nova Orleães, Luisiana, EUA (desfile funerário barulhento e com muito jazz); enterro do céu na Mongólia e no Tibete (devido à convicção da continuação dos espíritos após a morte, o corpo é cortado em pedaços e colocado numa montanha, desprotegido, para que se possa fundir com os elementos da natureza); pérolas sul-coreanas (transformação das cinzas após cremação em pérolas brilhantes de diferentes cores, em vez de as depositar em urna, existindo empresas vocacionadas para este trabalho); cremação em Bali – ilha da Indonésia localizada no arquipélago das Pequenas Ilhas da Sonda (entende-se que a cremação liberta a alma para habitar num outro corpo, pelo que o falecido é primeiro enterrado, logo após a morte e depois desenterrado e cremado numa torre funerária). Em Portugal os rituais da morte são muito influenciados pela religião católica, obedecendo por isso a um protocolo rígido de luto e presença nas casas mortuárias, em caixões cuja imponência está correlacionada com o estatuto do morto e da família, muito acompanhados de coroas de flores, havendo, no entanto, cada vez mais quem prefira cerimónias simples de cremação sem passar por ritos funerários. No livro de FEIJÓ, Rui G., MARTINS, Hermínio, CABRAL, João de Pina (1985). “A Morte no Portugal Contemporâneo”. Editoral Querco, Lisboa, são apresentados diferentes rituais existentes no Noroeste de Portugal.
[iv] RAMOS, Marília P. (2002). «Apoio social e saúde entre idosos». Revista Sociologias, ano 4, nº 7, jan/jun 2002, Porto Alegre, p. 156-175.
[v] SILVA, Maria das Dores Ferreira (2004). Processos de Luto e Educação. Dissertação de candidatura ao grau de Mestre em Educação, Área do Conhecimento Educação de Adultos, Instituto de Educação e Psicologia, Universidade do Minho.
