Introdução
O envelhecimento não é um slogan nem um tema decorativo para campanhas institucionais e muito menos um «fardo». É um processo complexo, que exige conhecimento técnico, planeamento e equipas multidisciplinares, tendo o apoio direto da Gerontologia e Geriatria, ciências fundamentais no século XXI.
O recente artigo da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG) recorda-nos precisamente isso: o gerontólogo é o gestor do envelhecimento, responsável por articular estratégias que preservam autonomia, independência e capacidade funcional ao longo da vida.
Num país como Portugal, onde a gerontologia continua invisível e a geriatria permanece subdimensionada, este lembrete é mais do que oportuno — é urgente.
O ENVELHECERES existe precisamente para contrariar a narrativa que reduz o envelhecimento a um «fardo». E este texto da ABG oferece-nos uma oportunidade rara para:
recentrar o debate onde ele deve estar — nas condições sociais, económicas e ambientais que moldam a forma como envelhecemos.
Também para chamar a atenção para o paradoxo português:
Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa, mas continua a ser um dos países com menos especialistas em envelhecimento — tanto médicos (geriatras) como não médicos (gerontólogos).
Enquanto isso, o discurso político insiste em “envelhecimento ativo”, “longevidade saudável” e “autonomia”, mas sem a infraestrutura humana mínima para o concretizar.
Este paradoxo não é técnico. É político!
O que a ABG nos lembra sobre o papel do gerontólogo
O texto da ABG é claro: a transição demográfica exige novas prioridades. Não basta viver mais; é preciso viver melhor. E isso depende da preservação de três pilares:
- Autonomia — poder decidir sobre a própria vida.
- Independência — capacidade de realizar atividades sem ajuda.
- Capacidade funcional — conjunto de habilidades físicas e cognitivas que sustentam a vida quotidiana.
É aqui que entra o gerontólogo. Com uma visão biopsicossocial, integrada e holística, este profissional:
- realiza Avaliação Gerontológica;
- identifica vulnerabilidades e potencialidades;
- elabora planos de cuidado individualizados;
- promove envelhecimento ativo;
- forma cuidadores formais;
- integra tecnologia, educação e cuidado para reforçar autonomia.
O artigo sublinha ainda a importância da alfabetização digital e da inclusão tecnológica como direitos fundamentais — algo especialmente relevante num mundo de telemedicina, wearables e plataformas digitais.
Gerontologia e Geriatria: duas áreas distintas, ambas essenciais
O texto da ABG foca-se exclusivamente na gerontologia. Mas para compreender o atraso português, é essencial distinguir:
- Geriatria — especialidade médica dedicada ao diagnóstico e tratamento de doenças em pessoas mais velhas.
- Gerontologia — área multidisciplinar dedicada ao processo de envelhecimento em todas as suas dimensões.
Um geriatra trata doenças. Um gerontólogo trabalha para que a pessoa mantenha autonomia, participação e qualidade de vida, podendo, por isso, contribuir para minimizar doenças.
Confundir estas áreas — como tantas vezes acontece em Portugal — prejudica a resposta social e de saúde.
Portugal: gerontologia invisível, geriatria insuficiente
Portugal envelhece rapidamente, mas continua sem integrar a gerontologia de forma estruturada. Não existe reconhecimento profissional claro, nem enquadramento legal robusto, nem integração sistemática nos serviços sociais e de saúde do gerontólogo.
Todavia, o gerontólogo foi oficialmente reconhecido como categoria profissional em 2022, o que permite a sua integração em quadros institucionais.
No entanto, este reconhecimento não equivale à regulamentação da profissão, que continua por concretizar, apesar do Parlamento ter recomendado ao Governo, em 2016, a regulamentação do exercício da profissão de gerontólogo e de em 2019 ter sido promovida por estudantes do curso de licenciatura em Gerontologia da Escola Superior de Saúde, do Instituto Politécnico de Bragança, e profissionais já licenciados em Gerontologia, uma Petição a apresentar à Assembleia da República: “Regulamentação do Exercício da Profissão de Gerontólogo em Portugal”. Mas a atividade profissional continua por regulamentar!
Ao mesmo tempo, o país tem poucos médicos geriatras, e a especialidade continua pouco atrativa e pouco disseminada no SNS. O resultado é previsível: a maioria das pessoas mais velhas nunca é acompanhada por um especialista em envelhecimento — nem do ponto de vista clínico, nem do ponto de vista funcional e social.
Brasil: reconhecimento formal do gerontólogo e maior estruturação
O Brasil não é um paraíso do envelhecimento — enfrenta desigualdades profundas e desafios enormes. Mas há uma diferença estrutural que importa reconhecer: o país estruturou a formação e a prática profissional do gerontólogo, mesmo sem regulamentação legal plena, apesar de existirem projetos de lei em tramitação. A existência de cursos universitários consolidados e de atuação reconhecida em múltiplos serviços públicos e privados cria uma estrutura que Portugal ainda não conseguiu construir.
Isto permite:
- equipas interdisciplinares com funções claras;
- intervenção preventiva;
- acompanhamento contínuo;
- políticas públicas baseadas em conhecimento técnico.
Portugal tem muito a aprender com esta organização.
O envelhecimento não é um «fardo», nem um «problema», é estrutural, não individual
A partir deste enquadramento da ABG, importa olhar para o que realmente determina a forma como envelhecemos.
Pensar a intervenção do gerontólogo na sua dimensão biopsicossocial implica, por isso, saber reconhecer que a forma como envelhecemos depende mais:
• das desigualdades acumuladas ao longo da vida;
• da qualidade das políticas públicas;
• da distribuição de recursos;
• da capacidade das sociedades se organizarem coletivamente, do que de escolhas individuais ou de “estilos de vida saudáveis”.
O discurso do “envelhecimento como ameaça”, um “peso” politicamente conveniente, tem de ser desconstruído porque serve para:
• justificar cortes;
• adiar reformas;
• transferir responsabilidades do Estado para as famílias.
É uma narrativa que infantiliza as pessoas mais velhas e desresponsabiliza quem governa.
Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa. Mas isso não significa que sejamos um país “velho”. Significa que:
• vivemos mais tempo;
• mas não necessariamente melhor;
• e que as desigualdades acumuladas ao longo da vida se tornam mais visíveis na velhice.
O problema não é a idade das pessoas.
O problema é a idade das políticas — demasiado antigas para a realidade que temos hoje.
Continuamos a ter:
• sistemas de cuidados fragmentados;
• respostas sociais insuficientes;
• territórios profundamente desiguais;
• uma visão assistencialista que reduz as pessoas mais velhas a destinatários passivos.
O que o ENVELHECERES acrescenta ao debate
Defende a necessidade de mudar a linguagem, as prioridades e a política.
Mudar a linguagem
Não falamos de “fardo”, “peso” ou “sustentabilidade demográfica”.
Falamos de:
• direitos;
• participação;
• autonomia;
• justiça social.
Mudar as prioridades
O foco não deve estar em “como lidar com as pessoas mais velhas”, mas em:
• garantir condições de vida dignas ao longo de todo o ciclo de vida;
• reduzir desigualdades;
• criar comunidades que cuidam;
• assegurar que ninguém envelhece sozinho.
Mudar a política
O envelhecimento não é um setor.
É uma lente transversal que deve atravessar:
• saúde;
• habitação;
• mobilidade;
• educação;
• ambiente;
• trabalho;
• governação local;
Conclusão: envelhecer exige equipas, não improviso
O artigo da ABG é um lembrete poderoso: envelhecer bem é possível, mas exige profissionais preparados, equipas integradas e políticas públicas que reconheçam a complexidade do envelhecimento.
Portugal precisa de:
- regulamentar a gerontologia;
- reforçar a geriatria;
- integrar equipas multidisciplinares;
- apostar na prevenção e na literacia;
- abandonar a ideia de que envelhecer é apenas “um tema social”.
Envelhecer é inevitável. Envelhecer bem é uma escolha coletiva — e uma responsabilidade política. Cada decisão política, cada orçamento, cada escolha de planeamento, cada modelo de cuidados, cada narrativa mediática contribui para uma sociedade que cuida — ou para uma sociedade que abandona!
Chamada à ação
Se queremos um país onde todas as pessoas possam envelhecer com dignidade, precisamos de:
- exigir políticas públicas que tratem o envelhecimento como prioridade;
- combater narrativas que reduzem as pessoas mais velhas a números;
- construir comunidades que cuidam;
- participar ativamente no debate público.
O futuro não se adivinha — constrói-se.
