Uma decisão que reabre o debate
A decisão do Infarmed de rejeitar a comparticipação de novos medicamentos para a doença de Alzheimer, incluindo terapêuticas como o Lecanemab, recolocou no centro do debate público uma pergunta inevitável:
– quem deve pagar tratamentos muito caros quando o benefício clínico existe, mas é limitado?
A resposta oficial sublinhou a ausência de “valor terapêutico acrescentado” suficiente para justificar financiamento público. Mas há uma parte essencial da discussão que continua quase ausente:
– qual o papel da indústria farmacêutica na fixação de preços que tornam estes medicamentos inacessíveis para a maioria das famílias?
O que está em causa com o Lecanemab
O Lecanemab, comercializado como Leqembi, foi autorizado na União Europeia para pessoas com doença de Alzheimer em fase inicial, em condições restritas: défice cognitivo ligeiro ou demência ligeira, confirmação de patologia amiloide e ausência ou apenas uma cópia do gene ApoE4. A Agência Europeia de Medicamentos reconhece que o fármaco pode abrandar o declínio cognitivo, mas exige administração por perfusão quinzenal, vigilância especializada e ressonâncias magnéticas seriadas para detetar ARIA (Anormalidades de Imagem Relacionadas à Amiloide – uma complicação que pode envolver alterações visíveis em ressonância magnética, do tipo edema cerebral/ ARIA-E ou pequenas hemorregias/ ARIA-H).
O preço que as famílias não conseguem suportar: Lecanemab para poucos
Sem comparticipação, o custo anual para uma família portuguesa pode situar-se em dezenas de milhares de euros, antes mesmo de se contabilizarem deslocações, exames, consultas, tempo perdido e desgaste emocional, porque, segundo apurei, temos um custo indicativo de 2.070€/mês e um custo estimado de 24.850€ a 24.690€/ano. Quem tem possibilidades?
Um mercado mundial de enorme dimensão: o lucro com o Lecanemab
A dimensão económica ajuda a perceber o problema. A empresa Eisai projetou para o Leqembi receitas globais de 143,5 mil milhões de ienes no ano fiscal de 2026, cerca de 900 milhões de dólares, depois de receitas preliminares de 88 mil milhões de ienes no ano fiscal anterior. Outras análises anteriores chegaram a apontar para vendas mundiais de vários milhares de milhões de dólares no final da década. Mesmo admitindo custos elevados de investigação, produção, distribuição e monitorização, estamos perante um mercado de escala mundial, com potencial para margens muito significativas.
Em Portugal, uma estimativa simples mostra a ordem de grandeza: se apenas 1.000 doentes fossem tratados sem redução de preço, a faturação anual do medicamento poderia aproximar-se de 25 milhões de euros; com 5.000 doentes, rondaria 125 milhões de euros por ano. Estes valores não representam lucro líquido — que depende de custos industriais, acordos de preço, descontos confidenciais, impostos e partilha de receitas entre empresas — mas mostram a dimensão do incentivo económico. À escala mundial, se a terapêutica atingir a projeção de cerca de 900 milhões de dólares anuais, uma margem operacional hipotética de 20% a 30% significaria 180 a 270 milhões de dólares por ano antes de impostos; se as vendas futuras chegassem a vários milhares de milhões, o lucro potencial subiria proporcionalmente.
Estado, Infarmed, associações e indústria
O Governo e o Infarmed ficam agora sob pressão. Mas para mim, também, as associações de doentes que reclamam acesso, equidade e rapidez nas decisões. A ministra da Saúde defende que financiar sem evidência técnica robusta seria má governação. Ambas as posições merecem discussão. Mas o enquadramento público tem sido incompleto se limitar o conflito a uma oposição entre Estado que recusa pagar e doentes que precisam de tratamento.
A outra pergunta, menos confortável (nunca percebi onde está o medo), é esta:
que responsabilidade tem a indústria farmacêutica, quando coloca no mercado terapêuticas destinadas a doenças altamente prevalentes, como a doença de Alzheimer, a preços que podem gerar receitas gigantescas e, ao mesmo tempo, excluir a maioria dos doentes?
O preço como decisão política e ética
Num mundo envelhecido, com milhões de pessoas afetadas por demência, mesmo uma terapêutica dirigida apenas a fases iniciais representa um mercado potencial colossal. O preço não é um detalhe técnico: é uma decisão que define quem pode tratar-se e quem fica de fora.
Por isso, a discussão não deve ser reduzida à pergunta “o Estado paga ou não paga?”. Deve incluir outra, talvez mais decisiva:
porque é que medicamentos desenvolvidos para responder a uma necessidade social imensa chegam aos sistemas de saúde com preços que ameaçam a sustentabilidade pública e empurram as famílias para escolhas impossíveis?
Entre a prudência clínica e a justiça no acesso
No plano individual, há casos em que a decisão de não iniciar Lecanemab pode ser clinicamente prudente e financeiramente responsável, sobretudo quando a pessoa está funcional, estável e a beneficiar de intervenções não farmacológicas com impacto real na autonomia: exercício físico, estimulação cognitiva, gestão vascular, sono, interação social e rotinas estruturadas. No plano coletivo, porém, a existência de um medicamento potencialmente útil, mas praticamente inacessível, revela uma falha mais profunda.
Doença de Alzheimer: Prevalência, Diagnóstico e Prevenção ►
Se os governos devem exigir evidência antes de financiar, também devem ter coragem para negociar preços, questionar margens, coordenar posições internacionais e defender modelos de acesso que não transformem a esperança terapêutica num privilégio económico.
E as associações de defesa dos doentes, justamente preocupadas com o acesso, talvez tenham também de dirigir a sua pressão não apenas ao Estado, mas às empresas que definem preços incompatíveis com a vida real das famílias!
Viver com Demência: A Voz de Wendy Mitchell ►
A pergunta que não pode ficar fora da notícia
O bloqueio atual à comparticipação pode estar no Infarmed e no Governo. Mas o bloqueio original à equidade começa antes: começa quando a inovação chega ao mercado com um preço capaz de transformar uma doença devastadora numa oportunidade de faturação mundial!
Falar de Alzheimer é falar de ciência, de cuidado e de dignidade. Mas é também falar de poder económico. E esse debate não pode continuar fora da notícia — nem fora da consciência pública.
Infarmed recusa comparticipar medicamento que ajudaria doentes com Alzheimer — NiT
