ENVELHECERES — Envelhecer bem é possível

Quando a guerra rouba o direito a envelhecer

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A normalização da violência e o impacto no direito a envelhecer

O negócio da morte e o silêncio que o alimenta sempre me incomodaram. Há algo profundamente errado na forma como o mundo olha para a guerra: não apenas nas imagens que passam nos ecrãs, mas na normalização silenciosa que se instalou no discurso público. Guerras aparecem como inevitáveis, como se fossem fenómenos naturais. Mas não são. São decisões humanas, tomadas por poucos e pagas por muitos — e que roubam a milhares o direito mais básico: o de envelhecer.

Memórias de quem conhece o armamento da guerra aérea

Ao longo da minha vida profissional, tive contacto direto com a realidade do armamento. Entre 1972 e 1976 trabalhei no Gabinete de Produção de Munições e Estudos (PME), da Direção de Serviço de Material da Força Aérea Portuguesa, instalado nas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico (OGMA). Todas as semanas se avaliava a qualidade de bombas, espoletas, foguetes e, mais tarde, mísseis, antes de seguirem para o terreno. Era um trabalho técnico e rigoroso, que envolvia equipas de armamento, mecânicos, pilotos, técnicos da PME, uma base de municiamento (BA2 – Ota ou BA6 – Montijo) e o Campo de Tiro de Alcochete, onde se realizavam os ensaios.

Mas era também um trabalho impossível de dissociar da consciência de que cada objeto testado tinha um destino final que nunca era abstrato. Essa memória acompanha-me até hoje e molda a forma como olho para o direito a envelhecer num mundo onde tantas vidas são interrompidas antes do tempo.

Superpotências, tabuleiros de xadrez e vidas descartáveis em cenários de guerra

Talvez por isso me custe tanto ver como, décadas depois, continuamos a aceitar que superpotências tratem territórios inteiros como tabuleiros de xadrez. Os Estados Unidos, a Rússia, a China — cada uma à sua maneira — agem como árbitros de um mundo que não lhes pertence. E, à sua volta, alinham países que parecem ter esquecido a própria história, repetindo sobre outros aquilo que um dia lhes fizeram. A violência transforma-se em política externa, e o direito internacional em mera decoração.

A economia da guerra e o preço pago em vidas que não chegam a envelhecer

Mas há um lado desta realidade que raramente entra no debate público: a economia da guerra. E os números recentes são claros.

•            As receitas das 100 maiores empresas de armamento atingiram 632 mil milhões de dólares em 2023, um aumento real de 4,2% face ao ano anterior, impulsionado pelos conflitos na Ucrânia, Gaza e tensões regionais.

•            Em 2024, esse valor subiu ainda mais, para 679 mil milhões de dólares, o nível mais elevado alguma vez registado.

•            No mesmo período, os conflitos armados continuaram a causar centenas de milhares de mortes anuais, entre civis e combatentes, com picos recentes associados a guerras prolongadas e múltiplos teatros de violência.

Estes números não provam causalidade direta — e não precisam de provar. O que mostram é uma tendência paralela inquietante: à medida que o mundo se torna mais violento, a indústria que lucra com essa violência cresce de forma consistente.

Para quem já trabalhou com armamento, como eu, estes números nunca são neutros. Cada aumento de receita corresponde, inevitavelmente, a um aumento de produção. E cada aumento de produção corresponde a mais material que, mais cedo ou mais tarde, será usado em algum lugar do mundo. Não é possível olhar para estas curvas ascendentes sem pensar nas vidas que descem com elas.

Os dados internacionais do SIPRI – Stockholm International Peace Research Institute mostram como a indústria do armamento cresce em paralelo com a intensificação dos conflitos.

https://sipri.org

A guerra como máquina de destruição ambiental e humana

Há ainda a dimensão ambiental, tantas vezes ignorada. Mesmo que a ciência dominante não atribua às explosões um papel central nas alterações climáticas, é inegável que cada guerra destrói ecossistemas, liberta enormes quantidades de CO₂, contamina solos e águas e mata biodiversidade. A guerra é também uma máquina de degradação ambiental — e o planeta está a pagar essa fatura silenciosa.

A indiferença que mata: quando a dor dos outros deixa de ser nossa

O que mais me inquieta é a indiferença. A facilidade com que muitos observam a destruição como se fosse um espetáculo distante. E a ligeireza com que tantos comentadores, desconhecendo a realidade concreta dos instrumentos bélicos, falam de guerra como quem analisa um jogo, alinhando-se com um dos lados da barricada sem compreender o que cada arma significa na vida real.

Como se a dor dos outros fosse sempre dos outros. Mas não há “outros”. Há apenas pessoas. Pessoas que querem viver, trabalhar, amar, envelhecer em paz. Pessoas que nunca escolheram ser alvo de bombas, drones, mísseis ou sanções. Pessoas cujo curso de vida é interrompido antes de poder cumprir o direito mais básico: o de envelhecer.

A paz como responsabilidade ética e intergeracional

Este texto não é um manifesto ideológico. É um alerta. Uma recusa em aceitar que a vida humana seja tratada como variável descartável. A paz não nasce da resignação. Nasce da coragem de dizer basta, de exigir responsabilidade e de recusar a normalização da violência como instrumento político. Nenhuma superpotência, nenhum governo e nenhuma indústria têm o direito de decidir quem vive e quem morre, quem envelhece e quem não terá essa oportunidade.

Que este grito ecoe por todos os que nunca puderam gritar — e por todos os que, ainda vivos, continuam a ver o seu curso de vida ameaçado por decisões que não tomaram.

Como já escrevi noutros contextos, o envelhecimento não começa na velhice, mas no curso de vida inteiro — e é profundamente marcado pelas desigualdades que o atravessam. Quando a guerra se torna política, o envelhecer deixa de ser um direito universal e transforma‑se num privilégio frágil, sempre à mercê da indiferença.

A demografia do envelhecimento e a falta de visão política ►

Olá, sou Raul Jorge Marques

Formação Avançada pós-Universitária em Gerontologia Aplicada – Vertente Social e Clínica. Mestre em Geografia Humana – Desenvolvimento Regional. Licenciado em Geografia e em Geografia-Ramo de Formação Educacional. Consultor independente em desenvolvimento territorial e gerontologia aplicada. Coordenador Científico na ANIMAR, do Grupo de Trabalho Envelhecimento e Desenvolvimento Local, promovendo envelhecimento ativo e territórios inclusivos.

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