ENVELHECERES — Envelhecer bem é possível

Portugal é hoje um dos países da União Europeia que envelhece mais depressa, e a solidão não desejada entre pessoas mais velhas é reconhecida como um problema de saúde pública, associado a maiores riscos de demência, doenças cardiovasculares e mortalidade. Em Lisboa, quase metade das pessoas com 65 ou mais anos vive sozinha, segundo o diagnóstico KORALE (2025).

Perante este cenário, autarquias — municípios e, cada vez mais, freguesias — têm assumido um papel ativo na construção de respostas de proximidade. Este artigo reúne iniciativas em curso, do nível municipal ao mais local, e termina com exemplos internacionais que ajudam a pensar o que pode ser transferido para Portugal.

Iniciativas municipais de combate à solidão

Ílhavo: “Solidão Zero”

Lançado esta semana como projeto-piloto até setembro de 2027, o programa envolve inicialmente 30 pessoas mais velhas e articula teleassistência, saúde, segurança, voluntariado, cultura e mobilidade. Entre as medidas está o “Café Solidário”, com 21 estabelecimentos comerciais aderentes, e uma rede de voluntariado de proximidade para visitas, contactos telefónicos e momentos de convívio. O município conta com a Unidade Local de Saúde de Aveiro e a GNR como parceiros, reconhecendo que o isolamento tem impacto direto no bem-estar e na saúde.

Porto: “Porto Importa-se” e Residências Partilhadas

Em vigor desde 2017, o programa da Domus Social (empresa municipal de habitação) acompanha inquilinos com mais de 70 anos e casais com mais de 75 sem outros elementos no agregado familiar, num universo estimado de cerca de 3000 pessoas. Já foram sinalizados 458 casos de isolamento social severo com acompanhamento regular, e o projeto foi recentemente prolongado por mais 36 meses, com financiamento do PRR.

Paralelamente, as Residências Partilhadas para Seniores atribuem casas do parque habitacional municipal a pessoas mais velhas em situação de vulnerabilidade que aceitem partilhar habitação — um modelo que já conta com oito habitações partilhadas na cidade e prevê nova residência em Ramalde.

Lisboa – Projeto Radar e Comunidade de Prática KORALE

Pioneiro em Portugal, o Projeto Radar é uma ação participativa de prevenção, levantamento e acompanhamento das pessoas com 65 ou mais anos em isolamento social e solidão não desejada, funcionando em rede.

A intervenção assenta em três níveis:

  • interorganizacional, com 31 entidades ligadas por uma plataforma digital;
  • comunitário, com micro-redes locais que funcionam como “olhos e ouvidos” da cidade;
  • cidadania ativa, mobilizando vizinhos e comerciantes.

O projeto integra 39 000 pessoas idosas e 4 700 radares comunitários, com cerca de 2 000 contactos mensais.

“Lisboa, Cidade com Vida para Todas as Idades” é um programa estratégico que nasceu de um diagnóstico social feito em 2016 e que visa melhorar a qualidade de vida e o bem-estar da população com 65 ou mais anos, transformando a cidade num espaço de vida ativa, autónoma e de participação plena. Promove políticas integradas para a longevidade, incluindo iniciativas de combate ao isolamento social, criação de bairros solidários e envolvimento comunitário da população mais velha.

Lisboa participa ainda no Projeto KORALE (Knowledge for Resilient Ageing and Loneliness in Europe, 2024–2028), um projeto Interreg Europe, com o objetivo de promover políticas públicas de combate e prevenção da solidão e do isolamento social em seis territórios da Europa. Além da Adinberri Foundation (Líder), do País Basco (Espanha), o consórcio integra entidades como a Câmara Municipal de Lisboa e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (Portugal), Social City Vienna (Áustria) e DEFACTUM (Dinamarca), bem como os municípios de Fingal (Irlanda) e Aalst (Bélgica).

Évora: “Laços para a Vida”

Modelo de coabitação intergeracional que responde simultaneamente à solidão das pessoas mais velhas no centro histórico e à falta de alojamento acessível para estudantes: a pessoa mais velha cede um quarto e o jovem oferece companhia e apoio, com contrato formal e acompanhamento próximo.

Góis: acompanhamento individualizado

O “Projeto de Acompanhamento Individualizado aos Idosos em Situação de Isolamento e Solidão“, é um projeto municipal criado em 2017 e um exemplo de como territórios do interior também inovam e desenvolvem respostas próprias.

Cascais: diagnóstico técnico

A autarquia encomendou ao ISCTE um estudo aprofundado (2023) sobre isolamento, solidão e qualidade das relações sociais, cruzando variáveis sociodemográficas e produzindo recomendações — um caso interessante de base empírica a preceder a intervenção.

Iniciativas de combate à solidão: nível da freguesia

Quase todas as respostas ao nível de freguesia assentam em visitas domiciliárias regulares, dependem de voluntariado de proximidade, surgem de parcerias com centros paroquiais ou associações locais e são de baixo custo e alta replicabilidade. Abaixo apresentam-se os exemplos que consideramos relevantes.

Arcozelo, Barcelos: “Rede de Afetos”

Lançada esta semana pela Junta de Freguesia em parceria com o Centro Paroquial de Arcozelo, sob o lema “Porque ninguém deve viver só“. Oferece visitas domiciliárias gratuitas a pessoas mais velhas e munícipes em situação de vulnerabilidade, com sinalização feita diretamente na junta ou por vizinhos, familiares e profissionais de saúde, sob garantia de confidencialidade.

Esta freguesia já tinha uma base preparada para esta intervenção: o Grupo de Solidariedade Humana de Arcozelo, ativo desde 2001, mantém um voluntariado de proximidade com 20 pessoas que fazem visitas domiciliárias regulares — mostrando como novos programas ganham força quando se apoiam em estruturas de voluntariado já consolidadas.

Funchal (Freguesia do Imaculado Coração de Maria): “Netos do Coração”

Projeto de voluntariado jovem que concilia cidadania ativa com combate ao isolamento de pessoas mais velhas da freguesia, através de visitas ao domicílio e atividades conjuntas. Nasceu de uma candidatura a fundos da Direção Regional da Juventude, com duração limitada de quatro meses, o que o torna um modelo interessante para projetos-piloto de curta duração e baixo investimento.

Câmara de Lobos: “Viver d’Afetos”

Dirigido à população mais velha das zonas altas do concelho, onde a mobilidade é mais difícil. Consiste em visitas domiciliárias semanais por uma equipa técnica, que ouve histórias, identifica necessidades, faz jogos e atividades de estimulação, e acompanha as pessoas mais velhas a consultas médicas — uma resposta pensada para o isolamento geográfico, não apenas social.

Pataias (Alcobaça): “Pataias Cuida”

Iniciativa muito recente que parte da constatação de que muitas situações de solidão são “silenciosas” e passam despercebidas. Está a construir uma rede de voluntariado ainda pequena, propositadamente, “para garantir crescimento responsável” — uma abordagem prudente para freguesias que querem começar sem se comprometer com uma estrutura maior do que os seus recursos permitem.

Guarda: “GuardAfetos”

Talvez o caso mais promissor em termos de transferibilidade: nasceu numa pequena aldeia e inova ao incluir profissionais de saúde nas equipas de apoio domiciliário, para além da higiene e alimentação, passando a monitorizar a saúde para prevenir internamentos. Está a ser estudado pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, que mapeia a realidade do concelho para produzir recomendações replicáveis, e já há autarquias interessadas em copiar o modelo.

Padrão transversal

Ao contrário dos programas municipais, que exigem orçamentos e estruturas maiores, os exemplos de freguesia, baseadas em visitas regulares e voluntariado de proximidade, mostram respostas de baixo custo, muitas vezes nascidas de parcerias com centros paroquiais ou associações locais já existentes — o que os torna mais fáceis de replicar noutras freguesias pequenas ou com poucos recursos técnicos.

Este padrão mostra que as freguesias são hoje o nível mais ágil e replicável da intervenção contra a solidão.

Redes de Vizinhança e Envelhecimento em Portugal ►

Um exemplo internacional transferível de combate à solidão

Países Baixos: Humanitas Deventer — estudantes em lares de pessoas mais velhas

No lar Humanitas, na cidade holandesa de Deventer, estudantes universitários vivem gratuitamente (ou com grande desconto) dentro da instituição, ao lado de cerca de 160 residentes. Em troca, comprometem-se a dedicar pelo menos 30 horas por mês a conviver com as pessoas mais velhas: jogos, refeições partilhadas, ensinar informática, ver desporto juntos, fazer companhia quando alguém adoece.

O modelo resolve dois problemas ao mesmo tempo — a falta de alojamento acessível para estudantes e o isolamento dos residentes — e tem sido associado a reduções de custos com cuidados paliativos e saúde mental, além de ganhos documentados em bem-estar psicológico para as pessoas mais velhas.

A ideia já foi adaptada noutras cidades holandesas e testada em França, Alemanha e Japão. É um caso particularmente útil para pensar Portugal: mostra que a coabitação intergeracional pode ser formalizada como política de instituição (ERPI ou residência), complementando iniciativas já em curso no país, como o “Laços para a Vida” em Évora.

Áustria, Dinamarca, Bélgica, Irlanda – parceiros do KORALE

Programas de vizinhança ativa, integração entre saúde e habitação, redes comunitárias e políticas municipais de combate à solidão.

Nota final

Do programa municipal de grande escala à visita semanal organizada por uma junta de freguesia, o combate à solidão em Portugal está a ganhar forma através de uma combinação recorrente: diagnóstico, redes de voluntariado, teleassistência, parcerias com saúde e segurança e coabitação intergeracional.

Os exemplos europeus mostram que Portugal está alinhado com uma tendência internacional: formalizar políticas públicas de combate à solidão, integrando saúde, habitação, educação e participação comunitária. O caminho mais promissor parece ser híbrido: freguesias como base de proximidade, municípios como estrutura de escala e instituições como espaço para modelos intergeracionais.

Independentemente da opção, não podemos deixar pessoas mais velhas — e também mais novas — perdidas entre quatro paredes.

Há ainda muito trabalho por fazer, sobretudo se considerarmos que Portugal tem 308 concelhos e 3.258 freguesias — cada uma com realidades, recursos e desafios próprios.

Solidão entre quatro paredes

Fonte: Imagem de Freepik.com.br/fotos/solidao-na-velhice

Bibliografia e leituras recomendadas

Solidão e saúde pública

Solidão vs. isolamento

Portugal: diagnósticos e políticas locais

Modelos internacionais

  • Humanitas Deventer (Países Baixos). https://www.humanitasdeventer.nl
  • Arentshorst, Marlous & Kloet, Roy & Peine, Alexander (2019). Intergenerational Housing: The Case of Humanitas Netherlands. Journal of Housing For the Elderly. 33. 244-256. 10.1080/02763893.2018.1561592.
  • European Commission (2023). Loneliness in the EU – State of play and policy responses. https://commission.europa.eu

Olá, sou Raul Jorge Marques

Formação Avançada pós-Universitária em Gerontologia Aplicada – Vertente Social e Clínica. Mestre em Geografia Humana – Desenvolvimento Regional. Licenciado em Geografia e em Geografia-Ramo de Formação Educacional. Consultor independente em desenvolvimento territorial e gerontologia aplicada. Coordenador Científico na ANIMAR, do Grupo de Trabalho Envelhecimento e Desenvolvimento Local, promovendo envelhecimento ativo e territórios inclusivos.

Deixe um comentário

Verified by MonsterInsights