ENVELHECERES — Envelhecer bem é possível

Introdução

A solidão é muitas vezes associada à velhice. Mas será mesmo apenas um problema dos mais velhos? Estudos recentes mostram que este fenómeno atravessa todas as faixas etárias, afetando tanto jovens como adultos e pessoas mais velhas.

Podemos sentir solidão entre quatro paredes, no meio de uma multidão ou até rodeados de amigos.

A solidão não é ausência de companhia, é ausência de pertença!

Celebramos a autonomia dos gestos — levantar-se sozinho, ir ao supermercado, manter rotinas — mas esquecemo-nos de que não é só de passos que se vive. Vive-se de presença, de voz, de toque. Como lembrava Cristina Branco num texto publicado no Facebook (“Oiço falar das pessoas de idade com um brilho quase heroico na voz“) e partilhado por Maria Silvina Frade, por detrás da porta fechada há uma penumbra silenciosa que pesa mais do que qualquer saco de compras. E essa penumbra não é exclusiva da velhice: também os adolescentes, mergulhados em redes sociais, podem sentir-se invisíveis; também os adultos, entre mudanças profissionais e familiares, podem experimentar o vazio.

Será que sabemos realmente onde a solidão é mais evidente?

A invisibilidade dos mais velhos: um alerta urgente ►

O que é a solidão?

A solidão pode ser definida como a percepção subjetiva de isolamento, independentemente do número de relações sociais. Não se trata apenas de estar sozinho, mas de sentir-se desconectado ou incompreendido, mesmo em ambientes sociais.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, uma em cada seis pessoas no mundo é afetada por este sentimento, com impactos profundos na saúde física e mental, estando a solidão e o isolamento associados a cerca de 100 mortes por hora. Estes números preocupantes não ficam por aqui: “entre 17% e 21% dos indivíduos de 13 a 29 anos relataram sentir-se solitários, com as taxas mais altas entre os adolescentes“.

Solidão e isolamento estão associados a cerca de 100 mortes por hora, diz OMS | ONU News

Solidão ao longo da vida

  • Na juventude: Adolescentes e jovens adultos enfrentam desafios únicos, como a pressão social, o bullying e a transição para a vida adulta. A solidão nesta fase pode estar ligada à busca de identidade, a pressão social e ao sentimento de pertença, sendo frequentemente agravada pelo uso excessivo das redes sociais.
  • Na idade adulta: Apesar de ser uma fase de maior autonomia, muitos adultos sentem solidão devido a mudanças profissionais, familiares ou geográficas. Que o digam os professores ou os profissionais de saúde. O ritmo acelerado da vida moderna pode dificultar a manutenção de laços significativos.
  • Na velhice: A perda de entes queridos, a reforma, as limitações físicas e rotinas familiares mecânicas aumentam o risco de isolamento. No entanto, a presença de cônjuge e filhos pode atenuar este sentimento, embora não o elimine por completo.

Até que ponto a solidão dos mais velhos não reflete também a vida familiar que construíram? E a dos mais novos, a que estão a construir?

Impactos da solidão

A solidão está associada a maior risco de depressão, ansiedade, doenças cardiovasculares e até mortalidade precoce. É uma epidemia silenciosa que compromete autoestima, bem-estar e qualidade de vida. Hannah Arendt lembrava que “estar só” não é o mesmo que “sentir-se só”, mas na velhice estes dois estados colam-se como sombras no entardecer.

Estratégias pragmáticas de combate à solidão

Não há soluções mágicas, mas há caminhos possíveis:

  • Promoção de redes de apoio: Incentivar a participação em grupos comunitários, voluntariado e atividades culturais.
  • Educação emocional: Desenvolver competências de comunicação e empatia desde cedo.
  • Apoio psicológico: Facilitar o acesso a serviços de saúde mental, especialmente para grupos de risco.
  • Tecnologia com propósito: Utilizar as ferramentas digitais para criar conexões reais, e não apenas superficiais.
  • Gestos simples: presença, voz, tempo partilhado. Pequenos reconhecimentos que confirmam que ainda pertencemos ao mundo dos vivos.

Falamos tanto de felicidade… mas como tornar alguém que se sente só numa pessoa feliz? Talvez não seja possível prometer felicidade plena, mas é possível reduzir o peso da solidão e aumentar o sentido de pertença.

A solidão na literatura

A literatura oferece-nos exemplos profundos sobre a solidão. Fernando Pessoa, em “O Livro do Desassossego”, explora a solidão existencial; Clarice Lispector, em “A Hora da Estrela”, retrata a invisibilidade social; Paolo Giordano, em “A Solidão dos Números Primos”, mostra como o isolamento pode marcar a juventude.

Conclusão

A solidão é invisível, mas está em todas as idades. Não é destino, é contexto. Reconhecê-la é o primeiro passo para transformar silêncio em presença.

A mobilidade dá passos; o afeto dá sentido!

Para saber mais

  • Organização Mundial da Saúde (2025). Relatório sobre Conexão Social. Destaca a solidão como desafio global de saúde pública.
  • Pereira, G. L. (2025). Solidão em Perspectiva: Características e Determinantes em Diferentes Faixas Etárias. Universidade Estadual do Piauí.
  • Marcelino, K. G. S. et al. (2024). Características da família e solidão entre adultos mais velhos: evidências do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil). Revista Brasileira de Epidemiologia.
  • Dornelas, K. C. A. et al. (2021). As representações sociais da solidão em diferentes níveis etários. MSR Review.
  • Lima, E. L. Q. et al. (2024). Solidão na pessoa idosa: fatores de risco, impactos e intervenções. Revista Científica e-Locução.
  • Cacioppo, J. & Cacioppo, S. (2018). Loneliness: Human Nature and the Need for Social Connection. Norton. (referência internacional clássica sobre os impactos da solidão).
Olá, sou Raul Jorge Marques

Formação Avançada pós-Universitária em Gerontologia Aplicada – Vertente Social e Clínica. Mestre em Geografia Humana – Desenvolvimento Regional. Licenciado em Geografia e em Geografia-Ramo de Formação Educacional. Consultor independente em desenvolvimento territorial e gerontologia aplicada. Coordenador Científico na ANIMAR, do Grupo de Trabalho Envelhecimento e Desenvolvimento Local, promovendo envelhecimento ativo e territórios inclusivos.

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